A onda que levou as empresas brasileiras à bolsa americana – e deixou você para trás
Stone é a segunda empresa a lançar ações no exterior no meio da eleição – e fazendo barulho. O grande atrativo é um bolo maior de dinheiro.

Uma parada técnica nos planos de abertura de capital das empresas em ano de eleição é esperada. A seca na B3 estava no roteiro. O que chama a atenção é uma onda de ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) brasileiras nas bolsas americanas neste momento - e com barulho.
Dia 26 de setembro, antes do primeiro turno das eleições, quem acompanha o mercado certamente leu que a Arco Educação, uma empresa de sistemas de ensino do Nordeste - e que quase ninguém aqui ouviu falar - fez sua oferta pública de ações na Nasdaq. E com um estrondoso sucesso: vendeu as ações no topo da faixa de preço que sugeriu e viu seus papéis subirem 35% na estreia.
Agora, às vésperas do segundo turno, a empresa de meios de pagamentos Stone segue o mesmo caminho na Nasdaq. O interesse é tanto que a empresa antecipou em um dia a conclusão da oferta e já chega com cheques assinados (ou melhor, cartões pré-pagos) de empresas de 2 dos 2o homens mais ricos do mundo: a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, e a Ant Financial, fintech do grupo chinês AliBaba, de Jack Ma. O preço da ação saiu nesta quarta-feira (24) à noite, acima do valor proposto pelos bancos.
As duas empresas fizeram uma listagem exclusiva no exterior. O mais comum entre as empresas brasileiras que estão na bolsa americana é fazer uma dupla listagem. Ou seja, elas abrem o capital na B3 e lançam também ADRs na bolsa americana (recibos de ações). Foi o que fez, por exemplo, a Azul, que tem papéis negociados nas bolsas de Nova York e de São Paulo.
E o investidor brasileiro? Fica com aquele gosto amargo de quem não foi convidado para a festa? Por enquanto, sim. Se quiser ser sócio das empresas brasileiras, vai ter que comprar ações nos EUA. Quem tiver interesse, pode aprender como fazer o investimento neste guia.
Por que elas foram para a bolsa gringa?
Há explicações. Tanto Arco quanto Stone são inovadoras e com uma história de forte crescimento para vender - tudo que os investidores querem ouvir. Têm, ainda, tecnologia na veia de seus negócios e estão indo procurar em outros mercados o investidor especializado nesse setor.
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“O que ocorre é que no Brasil não existe uma base de investidores fortes e dedicados à tecnologia. Por isso essas empresas estão indo para fora”, afirma Alex Ibrahim, diretor de capital internacional da Nyse, a bolsa de Nova York.

A Nyse que começou essa história de oferta de ação brasileira exclusivamente lá fora. Primeiro foi a Netshoes no ano passado (um fracasso). No início deste ano foi a vez da PagSeguro, cuja cotação disparou 36% no primeiro dia.
Ibrahim diz que o investidor americano já conhece o Brasil por conta dos ADRS das empresas brasileiras e está acostumado a negociar ações de outros países da América Latina, como Chile, México e Colômbia. “O Brasil é imenso, com grande potencial de crescimento e é natural que os investidores queiram ter exposição”, resume.
O setor de tecnologia é considerado que de maior potencial. Hoje apenas três ou quatro empresas brasileiras estão listadas nos Estados Unidos. “Então existe uma pressão, uma demanda dos investidores, para que venham mais”, avalia. Por essa razão, ele aposta numa grande leva de fintechs acessando o mercado de capitais americano nos próximos meses.
Mais liquidez lá fora
Independentemente da volta dessa febre tecnológica, há várias outras razões que levam empresas a fazer os chamados “cross borders” IPOs. O avanço tecnológico e regulatório do mundo financeiro possibilita cada vez mais essas relações “entre fronteiras”.
Para começar, as bolsas pelo mundo, assim como a B3, são companhias abertas e visam o lucro. Elas estão indo atrás de países com perspectiva de crescimento e que tenham empresas que possam oferecer suas ações e gerar novas receitas para elas. Há mais de 15 mil empresas que poderiam estar na B3, mas a bolsa brasileira tem apenas cerca de 350. Está aí a razão para tanto interesse das bolsas estrangeiras no Brasil.
Do ponto de vista das empresas, a grande vantagem de cruzar a fronteira é acessar um grupo maior de investidores. Ou seja, apesar do ônus de ter custos mais altos, listar a empresa lá fora também traz como bônus a certeza de acesso ao capital e a liquidez para suas ações. Bolsas menores, às vezes, não reúnem investidores suficientes para criar um fluxo contínuo de negociação das ações.
As ofertas no exterior acabam com as chamadas barreiras de investimento. Quando uma empresa brasileira faz o IPO - seja no Brasil ou fora - ela faz esforços para acessar investidores globais, como fundos de investimentos, que alocam recursos na América Latina ou emergentes. Mas parte deles têm restrições para investir fora dos EUA.
Quando a empresa abre o capital na bolsa de Nova York diretamente, ela alcança os investidores dedicados, que têm restrições a investir em outros mercados. Esse perfil de investidor normalmente enxerga mais valor nos negócios ou seja, paga mais pelas novas companhias. E isso faz muita diferença para o controlador, que está vendendo o seu negócio.
Outra vantagem de abrir o capital lá fora, ainda que menor, é o desejo de ter ações avaliadas em uma moeda como o dólar, o que pode facilitar uma negociação para venda ou fusão da companhia.
Fuga em massa?
O fenômeno atual de empresa brasileiras indo lá para fora ainda não é exatamente uma tendência. Ano passado, 28 empresas brasileiras captaram US$ 14 bilhões vendendo ações. Dessas, 23 acionaram apenas a B3 e somaram US$ 11,4 bilhões (85%) do total; 3 tiveram captações no Brasil e exterior (US$ 1,9 bilhão); e 2 foram exclusivamente lá fora (US$ 700 milhões).
A B3 já está atenta ao movimento e, no âmbito do projeto da Comissão de Valores Mobiliários para redução dos custos regulatórios do mercado, tenta melhorar a atratividade do seu pregão. Hoje há, de fato, um entrave para duplas listagens se a operação principal for internacional: para emitir recibo de ações aqui, os chamados BDRs, a empresa precisa ter a maior parte das receitas vindas do exterior, o que não é o caso das fintechs. Ou seja, se uma empresa com a maioria das receitas em reais abrir o capital no exterior ela não consegue lançar recibos de ações no Brasil . Essa medida existe por conta de BDRS problemáticos que existiram no passado, casos de Agrenco e Laep.
Além da PagSeguro e Netshoes, também foi para a Nyse e ficou de fora da B3 a Nexa Resources (ex Votorantim Metais), que optou por um processo de dupla listagem, nos EUA e na Bolsa do Toronto.
Herbie Skeete, da consultoria britânica Mondo Visione, especializada em bolsas, diz que a competição por empresas se intensificou nos últimos anos, especialmente entre Nasdaq, Nyse e LSE. Muitas bolsas abriram escritórios ou passaram a visitar regularmente não apenas o Brasil, mas países da Ásia, Europa, a Índia e a Austrália.
Algumas, como as bolsas canadenses, têm o apelo de ter mercados dedicados. O país já é escolhido para ofertas de ações do setor de mineração e, mais recentemente, se destaca como a TMX, focada em companhias que têm negócios relacionados com a maconha. A competição também é grande entre as bolsas asiáticas, e até na região da África e do Oriente Médio. E as grandes operações, afirma, sempre serão disputadas pelas principais bolsas.
Skeete destaca uma outra razão chave para as empresas procurarem vender ações em outros países, o branding (construção da marca). “Listar em uma bolsa internacional pode ser uma ferramenta de marca mais efetiva para as empresas. Isso vale, por exemplo, para uma empresa de um país desenvolvido que atua em um mercado emergente e quer ser reconhecido nesse mercado. Ou até mesmo uma empresa emergente que tem um negócio mais valorizado num país desenvolvido”, diz.
Nyse e pós-eleição
Alex Ibrahim, diretor de capital internacional da Nyse, tem visitado o Brasil praticamente todo mês, encontrando-se com companhias com potencial para listar ações na Bolsa de Nova York. No começo do ano, graças à PagSeguro, ele diz que o mercado doméstico parecia bastante animado e promissor. Mas o processo eleitoral deixou tudo mais devagar.
“Em qualquer país, eleição geralmente cria volatilidade e risco. Tanto investidores quanto empresários esperam por uma definição do processo antes de levar adiante os negócios. Mas depois do desfecho, o mercado volta, com os riscos reavaliados”, diz Ibhraim.
Problemas recentes no Brasil, como os escândalos relacionados à política e à corrupção, segundo, Ibrahim, criam volatilidade, mas ele diz que nunca ouviu um investidor dizer “nunca mais invisto no Brasil”. “O investidor realoca, sai temporariamente, mas volta. Ele sabe que é um país que vai continuar crescendo.”
Quem está na fila?
O executivo, um brasileiro que já está há quase 30 anos em Nova York, esteve no país na semana de 15 de outubro e estará de volta em novembro. Ele ressaltou que nas últimas semanas sente a volta do interesse nas conversas para entender o processo de listagem lá fora.
Ibrahim diz que a fila de interessados no processo é grande. São fintechs, em grande número. Mas também empresas já listadas na B3 que deverão fazer uma nova captação, incluindo o mercado americano. Elas estão procurando mais de liquidez ou diversificar a base de acionistas em Nova York. E ele ressalta que a Nyse não está aqui para competir com a B3.
“Para nós todo processo é bem-vindo, seja a listagem apenas na Nyse ou a dupla. Nova York não canibaliza o mercado local, complementa”. Ele afirma que quando ocorre a dupla listagem, a liquidez no mercado local também cresce.
Mas a Nyse também avalia que o Brasil ainda não está totalmente representado em seu pregão. “Faltam empresas de consumo, transportes, energia e do agronegócio, por exemplo”, diz.
Para ele, há muita desinformação por aqui sobre custos e dificuldades de vender ações nos Estados Unidos . “Já houve, em parceria com o governo e a SEC [regulador americano] muitas flexibilizações das regras e as nossas visitas são justamente para educar as pessoas sobre isso”, diz.
A principal medida foi o Jobs Act, que criou facilidades para empresas emergentes acessarem o mercado americano. A empresa pode ir para Nyse seguindo as regras de seu país-sede, desde que explique aos investidores quais são as diferenças em termos de governança. E Ibrahim diz que não terá desconto dos investidores por isso. Hoje, o padrão contábil IFRS é aceito no lugar do US GAAP e empresas podem seguir práticas de governança de seus mercados locais.
Outro mito é o tamanho da operação. Para acessar a Nyse, a empresa precisa ter no mínimo um valor de mercado de US$ 200 milhões e captar pelo menos US$ 40 milhões. Se estiver preparada, tem condições, portanto, de fazer operações menores do que as aceitas no mercado brasileiro que são, em média, de R$ 500 milhões.
Segundo o executivo, na Nyse, 70% das empresas têm valor de mercado abaixo de US$ 5 bilhões. “Temos as empresas gigantescas, mas o forte mesmo são as empresas até abaixo de US$ 1 bilhão”, afirma. Na média, as empresas da Nyse valem em torno de US$ 800 milhões e a captação é de US$ 120 milhões.
Questionado sobre a opção de Stone e Arco pela Nasdaq, Ibrahim não se aperta. “Não se pode ganhar todas”, diz. Mas ele destaca que há na Nyse hoje 31 empresas brasileiras, enquanto a Nasdaq tem apenas essas duas.
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