Tesouro IPCA+ paga juro real recorde de 8%, mas grandes investidores não estão comprando. Qual é o risco?
Entenda por que os fundos ficaram mais seletivos e o que isso significa para quem investe pelo Tesouro Direto

As taxas do Tesouro IPCA+ estão nos maiores níveis históricos. Para o investidor pessoa física, a conta parece simples: se é possível travar uma remuneração próxima de 8% ao ano acima da inflação por mais de uma década, por que não aproveitar?
Mas existe um detalhe curioso por trás dessa história.
Enquanto as compras de Tesouro IPCA+ seguem fortes entre investidores individuais, grandes participantes do mercado — como fundos de previdência e gestores institucionais — ficaram mais seletivos na hora de comprar os títulos públicos.
A princípio, isso pode soar contraditório. Afinal, se a taxa é tão atraente, por que os profissionais estão pisando no freio?
A resposta mostra como a renda fixa brasileira é mais complexa do que parece e tem seus próprios riscos e oportunidades.
O que está acontecendo com o Tesouro IPCA+
Os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro para esta reportagem convergem em um ponto: não existe uma rejeição aos títulos públicos indexados à inflação.
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Segundo eles, o que existe hoje é uma demanda menor do que a observada em outros momentos, principalmente porque muitos dos grandes compradores já estão sobrealocados em Tesouro IPCA+ — ou NTN-Bs, no jargão financeiro.
Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, afirma que muitos fundos de pensão e de previdência já chegaram no limite de seus ativos e passivos — que é o casamento entre os investimentos da carteira e os compromissos futuros dessas instituições.
Isso reduziu a necessidade de continuar comprando NTN-Bs, principalmente de vencimentos longos, por já possuírem uma parcela relevante do patrimônio investida nesses títulos
A mesma leitura aparece na avaliação de Gabriel Santos, head de research da Bloxs. Ele destaca que muitos investidores institucionais aproveitaram a alta do juro real do Tesouro IPCA+ que aconteceu no ano passado para alongar posições e travar retornos maiores.
Depois desse movimento, as carteiras passaram a ter exposição alta aos títulos indexados à inflação, reduzindo a necessidade de novas compras em grande escala. Segundo Costa, novas compras agora são decisões mais oportunísticas do que estruturais.
Rotação de carteira
O segundo fator que ajuda a explicar por que esses investidores não estão comprando mais Tesouro IPCA+ mesmo diante de taxas historicamente elevadas é a Selic.
Com a taxa de juro básica pagando 14,25% ao ano, títulos pós-fixados e aplicações atreladas ao CDI oferecem um retorno bastante atrativo, com menor risco de oscilação nos preços e maior liquidez no resgate.
Para instituições que já carregam uma fatia importante da carteira em NTN-Bs, aumentar ainda mais a exposição significa assumir mais risco de prazo justamente quando existem alternativas rentáveis e menos voláteis.
Por isso, neste momento, a demanda dos investidores institucionais tem se concentrado em Tesouro Selic, Tesouro Prefixado de vencimento curto e títulos indexados à inflação também de vencimentos mais curtos.
"Títulos mais curtos têm menor sensibilidade às oscilações das taxas. Eles podem ser mais adequados para institucionais que desejam capturar o juro real sem assumir tanta volatilidade", diz Santos.
Já nos vencimentos longos, mesmo uma pequena elevação adicional da taxa produz uma queda relevante no preço do título, o que machuca o patrimônio e o retorno dos fundos.
Não é sobre 8%: é sobre aumentar para 9% ou cair para 6%
Para os institucionais voltarem a comprar Tesouro IPCA+ em volume ou os vencimentos mais longos, os especialistas veem dois caminhos.
- Um juro real ainda maior do que 8% ao ano; ou
- Sinais mais claros de que os juros reais tendem a cair no futuro.
Hoje, os gestores não enxergam nenhum desses gatilhos de forma convincente.
O juro real travado em 8% das NTN-Bs tem uma parcela relevante de risco atribuído ao crescimento da dívida pública. Santos avalia que ainda não existe uma sinalização crível de estabilização dessa dívida, que possa reduzir esse juro real.
Aqui, é válido lembrar que estamos em ano eleitoral e o ajuste fiscal é uma pauta fundamental para o mercado financeiro. Até o momento, nenhum dos pré-candidatos à Presidência falou abertamente sobre o assunto.
Sem essa convicção, permanece o risco de as taxas ficarem elevadas por tempo indeterminado ou até subirem mais após as eleições.
E para os fundos institucionais isso é um problema. Com taxas estacionadas ou subindo, a queda no preço dos títulos prejudica a performance.
Tesouro vigilante
Em paralelo, o Tesouro Nacional está evitando validar taxas cada vez maiores nas NTN-Bs.
Segundo os especialistas, o órgão tem adotado uma postura disciplinada nas emissões, reduzindo volumes ofertados nos papéis indexados à inflação e evitando aceitar prêmios considerados excessivos apenas para conseguir compradores.
Huang Seen, head de renda fixa da Tivio Capital, destaca que o Tesouro precisou reduzir significativamente o volume das emissões de Tesouro IPCA+ nas últimas semanas diante da demanda mais fraca.
A avaliação predominante é que essa estratégia deve continuar nos próximos meses.
Em vez de aceitar juros cada vez mais altos nas NTN-Bs, o Tesouro tende a privilegiar emissões com maior demanda, especialmente de títulos atrelados à Selic.
O que muda para a pessoa física?
A redução da demanda institucional não significa necessariamente o mesmo para quem investe nos títulos públicos pelo Tesouro Direto.
Fundos de pensão, de previdência, entre outros, precisam administrar fluxos de pagamentos, limites de alocação em classes de ativos, liquidez para resgate, performance e uma série de regras.
Já o investidor pessoa física tem preocupações completamente diferentes.
Não por acaso, as vendas de Tesouro IPCA+ na plataforma do Tesouro Direto dispararam 73% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Para quem pretende carregar o título até o vencimento, as taxas atuais na faixa de 7,5% e 8% ao ano permitem travar retornos reais historicamente elevados, com a possibilidade de dobrar o patrimônio em seis anos.
"Papéis intermediários, como os com vencimento entre 2035 e 2045, tendem a oferecer uma combinação interessante entre retorno e risco", afirma Costa, da Mirae Asset.
Entretanto, é importante alinhar o vencimento com o seu objetivo, para não correr o risco de ter que vender o título antes do vencimento e ter prejuízo na oscilação de preço.
"A melhor estratégia não é tentar acertar o pico da taxa, mas diversificar as datas de vencimento e comprar gradualmente, reduzindo o risco de concentração em um único momento de mercado", diz Costa.
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