Vinho mais barato? Redução de tarifas pode ampliar acesso a rótulos europeus no Brasil, mas impacto deve ser na prateleira
Com acordo entre União Europeia e Mercosul, mercado brasileiro pode ganhar diversidade e competitividade na taça, sem necessariamente baratear de imediato

Acessível na Europa, caro no Brasil. Os preços elevados dos vinhos do Velho Mundo que chegam por aqui, no entanto, podem estar com os dias contados. É que o novo acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, com entrada em vigor provisória prevista para 1º de maio, pretende eliminar em até 12 anos as tarifas de importação sobre vinhos europeus, hoje de 27%.
“O principal impacto seria a redução gradual das tarifas de importação, aumentando a competitividade frente a rótulos do Novo Mundo. Isso tende a ampliar o portfólio disponível, facilitar negociações diretas com produtores e elevar o nível de concorrência no mercado brasileiro”, analisa o sommelier Fernando Moreira, da importadora Santo Vino.
Mas, embora o acordo abra caminho para um cenário mais competitivo e diverso, o impacto no bolso do consumidor deve ser mais gradual e moderado do que se imagina à primeira vista.
O real preço da garrafa
Atualmente, o vinho importado enfrenta uma cadeia complexa de custos no Brasil, em que a tarifa de importação é apenas um dos elementos. Impostos internos como ICMS, IPI, PIS e COFINS, além de logística, câmbio e margens comerciais, compõem o valor final e pesam bastante no preço de uma garrafa: até 50%, de acordo com estudo realizado pelo IBPT, Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.

“Ou seja, a tarifa de importação é relevante, mas está longe de ser o único fator determinante”, resume Moreira. Isso significa que a redução da tarifa europeia tende a ter impacto limitado na ponta.
“Existe expectativa de queda, mas mais limitada do que o consumidor imagina. O vinho no Brasil sofre incidência de múltiplas camadas tributárias e custos logísticos relevantes. A redução da tarifa de importação ajuda, mas não transforma o preço final de forma radical”, esclarece o profissional.
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Na prática, o consumidor realmente perceberá a diferença, mas dificilmente verá uma mudança abrupta.
“A tendência é que apenas uma parte da redução tarifária seja percebida pelo consumidor final. Em segmentos mais competitivos e com maior volume de vendas, o repasse tende a ser mais visível. Ainda assim, o efeito não é imediato e nem integral, sendo incorporado de forma gradual ao longo do tempo”, reforça o sommelier.
Mais acessibilidade, mais portfólio
O cenário mais provável é uma mudança de posicionamento: vinhos europeus que hoje ocupam faixas mais altas podem migrar para categorias intermediárias, ampliando o acesso sem necessariamente se tornarem baratos.

“Vinhos europeus de entrada podem ganhar espaço no consumo do dia a dia, porém os rótulos clássicos continuarão com posicionamento aspiracional. A mudança maior deve ocorrer na faixa intermediária, onde há maior elasticidade de consumo”, pontua o profissional.
Essa faixa intermediária é justamente onde o mercado mais se movimenta e onde a disputa tende a se intensificar. Neste cenário, é natural que o comportamento do consumidor também comece a mudar.
“Com maior acesso, o consumidor tende a explorar novas regiões e uvas menos óbvias, reduzindo gradualmente a dependência de países tradicionais do Novo Mundo. Ao mesmo tempo, há uma evolução natural do paladar, com maior valorização de perfis ligados ao terroir e à tipicidade dos vinhos. Esse movimento contribui diretamente para a maturidade do mercado”, observa Moreira.
A reação do Novo Mundo
Hoje, o Chile segue como principal fornecedor do país, com US$ 213 milhões exportados para cá no último ano, como mostram os dados do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Para se ter uma ideia, o valor é quase o dobro da soma do valor dos dois maiores fornecedores europeus, Portugal e Itália, que juntam somam US$ 133,8 milhões em exportação.
Mesmo assim, o novo acordo deve movimentar o mercado sul-americano.
“Chile e Argentina devem reagir de forma estratégica, reforçando a competitividade em preço, consolidando marcas já reconhecidas e valorizando sua identidade, como no caso da força da Malbec argentina e da consistência dos tintos premium chilenos. Além disso, os acordos comerciais já existentes continuam sendo uma vantagem importante nesse novo cenário competitivo”, lembra Moreira.
A disputa, porém, não deve ser baseada apenas em preço, segundo o sommelier.
“É uma mudança de posicionamento do que uma guerra de preços. Reduzir preço de forma agressiva compromete valor de marca. A tendência é subir o nível qualitativo, reforçar identidade e trabalhar melhor segmentação de portfólio.”

Quem ganha com isso?
Em um primeiro olhar, a resposta parece simples: o consumidor. Mas o impacto se distribui ao longo de toda a cadeia, como conta o profissional da Santo Vino: “Todos os elos da cadeia tendem a se beneficiar desse movimento, ainda que em níveis diferentes”.
Com tarifas menores, importadores ganham acesso a portfólios mais competitivos e maior poder de negociação com produtores europeus, explica Moreira. O varejo amplia a oferta e qualifica o mix, acompanhando o avanço da concorrência. Já o consumidor passa a ter mais variedade de rótulos e, em alguns casos, preços mais competitivos, ainda que de forma gradual.
“No entanto, o principal ganho é estrutural: o mercado brasileiro de vinhos tende a se tornar mais competitivo, sofisticado e maduro, impulsionado pelo aumento da concorrência e pela ampliação do acesso a produtos internacionais”, finaliza o sommelier.
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