Por que o chinelo de salto “feio” da Havaianas pode mudar a história da marca?
O modelo apresentado na Copenhagen Fashion Week faz parte de uma estratégia da marca brasileira para transformar um chinelo popular em uma marca global de lifestyle

Quando a Havaianas revelou um chinelo de dedo com salto no estilo kitten heel durante a Copenhagen Fashion Week nesta terça-feira, 4, a internet começou a discutir se o modelo era bonito, estranho ou simplesmente desnecessário. A novidade, porém, diz muito mais sobre uma estratégia internacional do que simplesmente mais um lançamento.
O chinelo, pouco convencional, apareceu nos pés de modelos durante o desfile da Studio Constance’s, na semana de moda dinamarquesa, e faz parte da estratégia Taking New Heights, criada pela Havaianas para reposicionar sua imagem e ampliar sua presença nos mercados internacionais.
A novidade, aliás, revela um movimento mais amplo da companhia, que quer transformar um dos produtos mais populares do Brasil em uma marca de desejo global.
Segundo a companhia, o produto "reinterpreta a icônica estrutura de tira entre os dedos sob uma nova perspectiva". A novidade combina uma biqueira marcante com um salto baixo assimétrico de formato elíptico e mantém a tradicional sola de borracha da marca. O modelo chega nas cores preto, off-white e verde vibrante.

O problema de crescer vendendo um produto acessível
Por muito tempo, a Havaianas adotou um posicionamento de atender um mercado de chinelos acessíveis para brasileiros. Essa estratégia construiu uma marca fortíssima, mas trouxe um desafio: chega um momento em que vender mais unidades deixa de ser suficiente para sustentar o crescimento.
A resposta da companhia foi buscar mais valor agregado. Nos últimos anos, a Havaianas passou a investir em colaborações com estilistas, coleções limitadas e produtos que aproximam a marca do universo da moda.
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Em maio, por exemplo, lançou uma parceria com a estilista francesa Isabel Marant. A coleção de edição limitada trouxe dois modelos de sandálias, em quatro opções de cores, com preços entre R$ 350 e R$ 500.
A lógica é semelhante à de marcas como a Birkenstock, que conseguiu transformar um item funcional em um objeto de estilo. A ambição da Havaianas é que consumidores europeus enxerguem a marca não apenas como um chinelo, mas como um acessório de moda.

Essa estratégia já havia sido antecipada pela liderança da companhia. Em entrevista à Forbes em 2025, Maria Fernanda Albuquerque, CMO global da Havaianas, afirmou que a marca trabalha em duas frentes: preservar sua conexão com o Brasil e, ao mesmo tempo, construir uma imagem aspiracional internacional.
"Nossa estratégia é muito clara e baseada em dois pilares. Um é o da identificação: nunca podemos perder a conexão com o brasileiro. O outro pilar é o da aspiração, quando você eleva a marca, mostra o quanto ela está conectada com o mundo da moda", disse.

O mercado internacional entra no radar
A estratégia, porém, parece estar dando muito certo. No quarto trimestre de 2025, a Alpargatas, controladora da Havaianas, registrou lucro líquido recorde de R$ 197,3 milhões, contra R$ 2,1 milhões no mesmo período do ano anterior.
Segundo a companhia, a receita da Havaianas cresceu 12%, para R$ 1,24 bilhão. No Brasil, a marca ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 1 bilhão em vendas em um trimestre, alcançando R$ 1,05 bilhão, uma alta anual de 7,7%.
O avanço internacional foi ainda mais expressivo. A receita da operação da Havaianas fora do país cresceu 45,3%, chegando a R$ 184,3 milhões. O desempenho reforça a aposta da companhia em mercados externos, onde a marca tenta ocupar um espaço mais próximo do universo fashion.
Por que Copenhague importa
A escolha da Copenhagen Fashion Week para apresentar o novo modelo também faz parte da estratégia. Nos últimos anos, a capital dinamarquesa ganhou relevância no calendário global da moda por antecipar tendências de comportamento e consumo. Enquanto isso, Paris e Milão historicamente concentram o luxo tradicional.
- LEIA TAMBÉM: Nem Paris, nem Milão: por que a Copenhagen Fashion Week é a semana de moda que você deveria estar acompanhando?
Não por acaso, a marca já vinha construindo uma relação com o evento. Foi em Copenhague que apresentou sua colaboração com a OpéraSport e o primeiro modelo de dedo produzido por impressão 3D. "O Kitten Heel representa uma nova perspectiva de design para Havaianas, permanecendo fiel à leveza, à autenticidade e ao espírito brasileiro que sempre definiram a marca", afirmou Maria Fernanda em nota.
A marca, no entanto, ainda não revelou quando o modelo chegará ao mercado nem informou qual será a faixa de preço do produto.
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