Afinal, quem são os acionistas que decidiram colocar R$ 8 bilhões do próprio bolso no Bradesco (BBDC4)?
O aumento de capital de R$ 10 bilhões trouxe os controladores de volta aos holofotes; conheça a trajetória das herdeiras da família Aguiar

R$ 8 bilhões. Esse foi o cheque que os próprios controladores do Bradesco (BBDC4) decidiram colocar na mesa para bancar a maior parte do aumento de capital anunciado pelo banco.
Em uma oferta que pode chegar a R$ 10 bilhões, cerca de 80% dos recursos já têm destino certo: sairão das holdings Cidade de Deus, NCF e da Fundação Bradesco, os três pilares que controlam a instituição há décadas.
Mas quem são essas famílias e empresas que conseguiram garantir um aporte bilionário praticamente sozinhas?
Bradesco e a disputa judicial travada pelas herdeiras
O Bradesco nasceu em 1943, em Marília, no interior de São Paulo, idealizado por um grupo de bancários liderado por Amador Aguiar.
Desde o início, a proposta era romper com o modelo elitizado que dominava o sistema financeiro brasileiro, oferecendo crédito a um público até então negligenciado pelos grandes bancos — imigrantes, pequenos comerciantes, agricultores e trabalhadores de menor renda.
Durante quase quatro décadas, Aguiar comandou pessoalmente a expansão da instituição, transformando um banco regional em um dos maiores conglomerados financeiros da América Latina.
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Quando morreu, em 1991, aos 86 anos, Amador Aguiar deixou um patrimônio bilionário — e uma disputa familiar que atravessaria quase uma década nos tribunais.
Poucas semanas antes de morrer, o banqueiro registrou um testamento destinando praticamente todo o patrimônio à segunda esposa, Cleide de Lourdes Campaner Aguiar, sua antiga secretária, com quem havia se casado poucos meses antes em regime de separação total de bens.
A decisão provocou uma batalha judicial com suas três filhas adotivas — Lia, Lina e Maria Ângela Aguiar.
A disputa foi muito além da divisão da herança. Cleide argumentava que Lia e Lina não seriam filhas legítimas de Amador e afirmava que Maria Ângela teria renunciado aos direitos sucessórios anos antes.
Em 1998, a Justiça reconheceu definitivamente a paternidade e, dois anos depois, anulou o testamento por entender que Amador Aguiar já não possuía plena capacidade para firmar o documento quando ele foi elaborado.
A guerra pela herança demorou anos para chegar ao fim. Quando a poeira baixou, não foi apenas o destino da fortuna de Amador Aguiar que havia sido definido.
No fim, mais do que definir os herdeiros da fortuna do banqueiro, o processo consolidou uma estrutura de controle que permanece praticamente inalterada até hoje no banco.
Afinal, quem são as herdeiras do Bradesco?
Diferentemente de outras famílias que comandam grandes grupos empresariais brasileiros, os Aguiar praticamente desapareceram do noticiário econômico ao longo das últimas décadas.
Não frequentam eventos da Faria Lima, raramente concedem entrevistas e mantêm uma exposição pública mínima. Discrição é a palavra aqui.
Hoje, o núcleo familiar é formado principalmente pelas gêmeas Lia e Lina Aguiar, de 88 anos.
Lia Aguiar talvez seja a integrante mais conhecida da família. Conhecida em Campos do Jordão simplesmente como Dona Lia, ela trocou São Paulo pela Serra da Mantiqueira há muitos anos. Viúva e sem filhos, concentra na cidade boa parte de sua atuação filantrópica.
Sua fundação financia projetos sociais, culturais e educacionais, além de iniciativas que transformaram a decoração natalina da cidade em uma das maiores atrações turísticas da Serra da Mantiqueira.
Também criou um museu de automóveis antigos e já declarou publicamente que pretende destinar praticamente todo o seu patrimônio à fundação. Hoje, sua fortuna é estimada em US$ 1,1 bilhão (R$ 5,59 bilhões, no câmbio atual), segundo informações da Forbes.
Já Lina Aguiar mantém uma ligação mais direta com o banco por meio da segunda geração da família.
Seus filhos, Denise Aguiar Alvarez e Rubens Aguiar Alvarez, ocupam cadeiras no conselho de administração do Bradesco, preservando a influência da família nas decisões estratégicas da instituição.
A terceira irmã, Maria Ângela Aguiar, morreu em janeiro de 2025. Sua participação foi herdada pelos cinco filhos, que passaram a integrar o bloco familiar controlador.
Embora cada ramo da família tenha seguido caminhos diferentes, todos continuam ligados à estrutura societária criada por Amador Aguiar ainda em vida.
A arquitetura de controle do Bradesco
A Fundação Bradesco não controla o banco sozinha. O poder dos controladores está distribuído entre uma complexa rede de participações cruzadas construída ao longo de décadas.
A Fundação Bradesco possui cerca de 8,65% do capital total da instituição de forma direta.
Mas sua influência vai muito além dessa participação. Ela também é acionista das holdings Cidade de Deus e NCF, que concentram grande parte das ações ordinárias (ON) — justamente aquelas que garantem o controle da companhia.
Hoje, a Cidade de Deus detém aproximadamente 23,14% do capital total do Bradesco e responde por cerca de 46,19% das ações ordinárias, com direito a voto.
A NCF adiciona outros 5,41% do capital, equivalentes a aproximadamente 8,54% das ONs.
Somadas às participações diretas da Fundação Bradesco, essas estruturas formam um bloco controlador sólido, praticamente imune às oscilações do mercado.
Ou seja, embora quase toda a liquidez das ações preferenciais (PNs) esteja pulverizada entre investidores institucionais e pessoas físicas — que detêm cerca de 97,7% dessa classe de papéis —, o comando estratégico do banco continua concentrado nas entidades ligadas à família Aguiar.
É essa arquitetura societária que permite ao grupo garantir, praticamente sozinho, R$ 8 bilhões da nova oferta de ações.
Mas por que colocar tanto dinheiro justamente agora?
Essa resposta não está apenas na estrutura de controle do banco — ela passa também pela leitura que os próprios controladores fazem sobre o momento do Bradesco e do mercado.
A resposta mais intuitiva para um aumento de capital costuma ser também a que mais assusta o mercado: uma empresa precisa de dinheiro porque enxerga dificuldades pela frente.
No caso do Bradesco, porém, pessoas próximas às negociações afirmam que essa não foi a lógica da operação.
"As acionistas controladoras têm o legítimo interesse de continuar investindo no banco, onde salientam e reiteram sua elevada confiança no plano de transformação que está em andamento, com execução acelerada e bem-sucedida, trazendo impactos positivos crescentes sobre eficiência operacional e competitividade do Bradesco perante o mercado", disse o Bradesco, em fato relevante.
Fontes ouvidas pelo Seu Dinheiro também afirmam que o aporte não nasceu de uma preocupação com liquidez, tampouco de um aumento inesperado do risco de crédito.
Na visão dos entrevistados, o mercado continua atribuindo um desconto excessivo ao Bradesco, mesmo depois dos avanços promovidos desde que Marcelo Noronha assumiu o comando da instituição.
Em outras palavras, os próprios donos enxergam uma oportunidade de investir em um ativo que consideram barato.
"O aumento de capital não foi um pedido da diretoria executiva. Os controladores fizeram uma demanda para realizar um aporte de até R$ 10 bilhões porque entendem que existe uma oportunidade. O Bradesco continua muito descontado, está caminhando para o décimo trimestre do projeto de transformação, brigando por um ROE próximo de 16%, entregando praticamente todas as etapas do plano e ainda assim o mercado continua extremamente cético", afirmou uma fonte próxima da operação.
Esse desconto aparece em diferentes métricas utilizadas pelo mercado. Apesar da melhora consistente dos resultados, o Bradesco continua negociando próximo — ou até abaixo — de seu valor patrimonial, algo incomum para um banco que voltou a gerar retorno em linha com o custo de capital.
Há ainda outro argumento citado para justificar essa percepção de subavaliação.
Após a reorganização da operação de saúde envolvendo Bradesco Saúde e Odontoprev, o mercado passou a atribuir um valor próximo de R$ 45 bilhões ao negócio de saúde. Ao mesmo tempo, o banco inteiro vale cerca de R$ 180 bilhões na bolsa.
Na visão de pessoas próximas aos controladores, essa conta simplesmente não fecha.
Se apenas uma das principais subsidiárias representa aproximadamente um quarto do valor de mercado do grupo, haveria espaço para uma reprecificação importante caso o restante da operação continue entregando resultados melhores.
Outro fator pesa nessa decisão. Embora o ambiente macroeconômico continue difícil, a percepção dentro do banco é que o ciclo de juros elevados se aproxima do fim.
Quando a Selic começar efetivamente a cair, a expectativa é que a demanda por crédito acelere, a inadimplência recue gradualmente e a rentabilidade dos grandes bancos volte a ganhar força.
Segundo fontes, o objetivo não é apenas fortalecer o balanço, mas garantir que a instituição tenha fôlego suficiente para executar integralmente o plano estratégico que se estende até 2028.
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