Por que o IPO do Nubank pode ser uma armadilha para principiantes na bolsa
Ao longo dos tempos, e ponham tempo nisso, os principiantes em investimentos chegaram atrasados aos lançamentos como o IPO do Nubank

Para quem ainda não sabe, agora é possível negociar na B3 algumas ações listadas nas bolsas de Nova York. O pagamento é feito em reais, no Brasil, assim como em reais são cotados os papéis, evidentemente que convertidos de dólares no câmbio do momento da transação.
Esses papéis são conhecidos como BDRs (Brazilian Depositary Receipts).
Recentemente, o Banco Itaú, ao invés de distribuir dividendos em dinheiro, entregou aos seus acionistas BDRs (XPBR31) da XP, empresa na qual o Itaú tinha grande participação.
Para os acionistas, foi um péssimo negócio. Desde que receberam os BDRs da XP, este papel caiu de R$ 231,50 para R$ 190,90, um tombo considerável de 17,54% (esses valores são de 8 de novembro).
Agora o Nubank, em seu IPO, está também oferecendo BDRs, que representam uma fração da ação que será negociada nos Estados Unidos.
Muita gente que é novata no mercado pode achar que se trata de um bom negócio, só porque passou a possuir clones de uma ação de Wall Street.
Leia Também
Não é bem assim. Aliás, antes de continuar, você pode ler esse artigo mais rapidamente também pelo nosso Instagram.
Confira abaixo e aproveite para nos seguir na rede social (basta clicar aqui). Lá entregamos aos leitores análises de investimentos, notícias relevantes para o seu patrimônio, oportunidades de compra na bolsa, insights sobre carreira, empreendedorismo e muito mais.
Trocando ideias com os especialistas Rodrigo Natali, Pedro Cerize e Nícolas Merola, fiquei sabendo que eles consideram caros os preços desses BDRs do Nubank.
No prospecto de lançamento apresentado à SEC (Securities and Exchange Commission – Comissão de Títulos e Câmbio, xerife do mercado americano, equivalente à nossa CVM) a faixa de preço das ações do Nubank está entre US$ 10,00 e US$ 11,00. Já para os BDRs, entre R$ 9,35 e R$ 10,29.
Os recém-chegados ao mercado de renda variável devem se abster dessas operações inovadoras, antes que entendam o beabá das bolsas.
Sugiro que comecem com investimentos em ações de empresas sólidas, de larga tradição e que paguem bons dividendos.
IPOs, principalmente esses lançados fora do país como o do Nubank, são mais difíceis de avaliar.
Se o caro amigo leitor não tem vivência de mercado, ou pouco tempo para acompanhá-lo, é melhor entregar seu dinheiro a um fundo de renda variável que tenha um retrospecto de respeito.
Embora ganhos passados não representem garantia de lucros futuros, são no mínimo um bom indício de que esse fundo continuará tendo boa performance.
Ah, antes que eu me esqueça. Sua (ou seu) gerente de banco não é a pessoa mais indicada para lhe indicar o fundo. Eles recebem orientação de seus diretores e supervisores, que sempre decidem o que é melhor para a… ora vejam, para a instituição.
Chegando tarde demais
Ao longo dos tempos, e ponham tempo nisso, os principiantes em investimentos chegaram atrasados nos lançamentos.
Melhor explicitando: entraram na hora em que os lançadores estavam se livrando de seus papéis ou ativos os mais diversos.
Comecemos pela primeira febre especulativa da história.
Estou me referindo à tulipomania, ocorrida no século 17.
Quando se fala nesse episódio, as pessoas costumam ter a ideia errônea de que foi um fenômeno no qual todos saíram arruinados.
Ledo engano.
Tal como em toda corrente ou pirâmide, aqueles que chegaram em primeiro lugar, puxando os preços dos bulbos de tulipa, ganharam fortunas.
O prejuízo recaiu sobre os que entraram no auge da febre especulativa, quando o mercado tornara-se totalmente irracional, se é que podemos classificar o início como racional.
Nas páginas 346 e 347 de meu livro Os mercadores da noite (edição da Inversa), narro dois episódios quase simultâneos, acontecidos no início do século 18.
“Menos de 100 anos depois (da tulipomania), mais precisamente na década de 1730, agora tendo Paris como cenário, um escocês, de nome John Law, para uns gênio das finanças, para outros espertalhão, falsário e, até mesmo, assassino – batera-se em duelo de maneira não muito leal, em Londres, em 1694 −, estabeleceu a Compagnie d’Occident. Esta foi agraciada pela coroa francesa com os direitos de exploração de ouro no território da Louisiana, na época pertencente à França.
Law ofertou ações da nova companhia ao público. A aceitação foi fantástica, embora não houvesse nenhum indício da existência de ouro na Louisiana. Uma investigação mais apurada mostraria que a Compagnie d’Occident nem mesmo chegou a iniciar uma prospecção. Mas isso era um detalhe irrelevante para os especuladores parisienses. Lançaram-se ávidos à compra e venda dos novos papéis, no velho mercado de valores da Rue Quincampoix.
Em 1720, o mercado vacilou. Um príncipe, De Conti, suscitara algumas dúvidas sobre a existência daquele ouro. John Law respondeu aos rumores contratando centenas de mendigos nas ruas de Paris. Equipou-os de pás e picaretas. Fê-los marchar pela cidade, como se dirigissem à Louisiana. Mas, quando, algumas semanas depois, os especuladores viram os pedintes de volta, em seus pontos tradicionais, perderam as esperanças. O mercado desabou, lançando na miséria milhares de investidores.
Enquanto em Paris as pessoas se lançavam em busca da fortuna fácil, em Londres não se fazia por menos. A South Sea Company, fundada por Robert Harley, conde de Oxford, vendia ações ao público, acenando-lhe com a possibilidade de lucros gigantescos, a serem obtidos na exploração das riquezas da costa ocidental da América do Sul. Relegava-se a um segundo plano o fato de que a Coroa de Espanha, soberana das terras em questão, autorizava a South Company a fazer uma única viagem anual à região.
A febre tomou conta dos investidores ingleses. Entre janeiro de 1720 e o fim do verão daquele ano, quando sobreveio o crash, as ações da South Company pularam de 128 libras para mil.”
Tanto no episódio da Compagnie d’Occident como no da South Company, os primeiros que entraram, e caíram fora no auge da febre, lucraram fortunas.
Coube aos novatos financiá-los.
Embora verídicas, as três histórias acima são meio folclóricas, envolvendo apenas as pessoas mais ricas e os burgueses da Holanda, França e Inglaterra.
Já os Esfuziantes Anos Vinte (The Roaring Twenties) foram episódios especulativos que alteraram o rumo da história, tendo como consequência a Grande Depressão, a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial.
Vamos inventar um personagem e inseri-lo no contexto da década de 1920.
Peter Williams era um pequeno comerciante de Salina, no centro-norte do Kansas. Casado, esposa dona de casa e três filhos em idade escolar, o lucro de sua loja de ferragens dava para o gasto da família.
Ao longo dos Twenties, Williams viu muitos de seus vizinhos enriquecerem. Enriquecerem e deixarem de ser seus vizinhos, mudando para o lado mais valorizado da estrada de ferro.
De vez em quando, Williams encontrava um deles.
“Poxa, Pete, não sei por que você ainda não vendeu sua loja e aplicou no mercado de ações. Já teria multiplicado seu capital por dez ou vinte vezes. Nós estamos nos transformando em uma sociedade de ricos e você vendendo alicates, arame farpado e parafusos.”
Peter Williams acabou liquidando seu comércio e entrando na ciranda de Wall Street através do escritório de uma sociedade corretora local.
Crueldade minha inventar isso, mas ele começou no mercado justamente na terça-feira 3 de setembro de 1929, dia seguinte ao do Labor Day (dia do Trabalho), quando o Índice Industrial Dow Jones da NYSE (New York Stock Exchange) fez a máxima do bull market mais famoso de todos os tempos.
Se tivesse comprado ações da RCA (Radio Corporation of America), da The Texas Company (Texaco) ou da General Electric, e tivesse uns 25 anos de paciência pela frente, até teria ganho algum dinheiro.
Mas não.
Peter Williams adquiriu ações de uma empresa que comprava cotas de fundos, que por sua vez compravam cotas de outros fundos, que por sua vez compravam cotas de outros fundos e que por sua vez não compravam absolutamente nada. Seus “gestores” simplesmente embolsavam o dinheiro dos cotistas.
Conselhos do mestre Telê
Voltando aos tempos atuais, caros amigos, por favor, não tentem jogar na primeira divisão se ainda jogam descalços num campo de terra de um time de várzea.
Mesmo que sejam os craques de suas equipes.
Quando algum jovem chegava para uma experiência num time treinado por Telê Santana, este avisava:
“Vou lançar a bola em direção à linha de fundo. Você corre atrás. Quando ela estiver quase saindo do campo você, com apenas um toque, cruze sobre a pequena área. Se conseguir, vou pô-lo para treinar.”
Diz o Cafu, sim, o Cafu, campeão do mundo em 2002, que só foi conseguir lá pela décima tentativa.
Portanto, meus caros amigos leitores e leitoras, se você está começando hoje no mercado, não vá procurar BDRs internacionais como os do Nubank.
Metaforicamente, você vai sair pela linha de fundo com bola e tudo. Isso se não der uma furada desmoralizante e desabar no gramado.
Um forte abraço,
Ivan Sant'Anna
Leia também:
- Nubank oficialmente vai à Nyse (e à B3) e convidará clientes a serem sócios do banco; Inter pega carona e sobe 15%
- O bitcoin do Nubank ainda não é realidade — mas o banco digital já flerta com as criptomoedas em seu IPO
- Inter aprova migração para a Nasdaq e vai competir com o Nubank pelos investidores em NY
- Ouro e bitcoin não são reservas de valor: um não é uma boa defesa contra a inflação e o outro é cassino
Natura &Co é avaliada em mais de R$ 15 bilhões, em mais um passo no processo de reestruturação — ações caem 27% no ano
No processo de simplificação corporativa após massacre na bolsa, Natura &Co divulgou a avaliação do patrimônio líquido da empresa
Os bilionários de 2025 no Brasil e no mundo — confira quem subiu e quem caiu na lista da Forbes
Lista de bilionários bate recorde, reunindo 3.000 nomes que, juntos, somam US$ 16,1 trilhões, com Musk, Zuckerberg e Bezos liderando o ranking
Dólar dispara com novas ameaças comerciais de Trump: veja como buscar lucros de até dólar +10% ao ano nesse cenário
O tarifaço promovido por Donald Trump, presidente dos EUA, levou o dólar a R$ 5,76 na última semana – mas há como buscar lucros nesse cenário; veja como
Em busca de proteção: Ibovespa tenta aproveitar melhora das bolsas internacionais na véspera do ‘Dia D’ de Donald Trump
Depois de terminar março entre os melhores investimentos do mês, Ibovespa se prepara para nova rodada da guerra comercial de Trump
Tarifaço de Trump aciona modo cautela e faz do ouro um dos melhores investimentos de março; IFIX e Ibovespa fecham o pódio
Mudanças nos Estados Unidos também impulsionam a renda variável brasileira, com estrangeiros voltando a olhar para os mercados emergentes em meio às incertezas na terra do Tio Sam
Trump Media estreia na NYSE Texas, mas nova bolsa ainda deve enfrentar desafios para se consolidar no estado
Analistas da Bloomberg veem o movimento da empresa de mídia de Donald Trump mais como simbólico do que prático, já que ela vai seguir com sua listagem primária na Nasdaq
Vale tudo na bolsa? Ibovespa chega ao último pregão de março com forte valorização no mês, mas de olho na guerra comercial de Trump
O presidente dos Estados Unidos pretende anunciar na quarta-feira a imposição do que chama de tarifas “recíprocas”
Nubank (ROXO34): Safra aponta alta da inadimplência no roxinho neste ano; entenda o que pode estar por trás disso
Uma possível explicação, segundo o Safra, é uma nova regra do Banco Central que entrou em vigor em 1º de janeiro deste ano.
Nova York em queda livre: o dado que provoca estrago nas bolsas e faz o dólar valer mais antes das temidas tarifas de Trump
Por aqui, o Ibovespa operou com queda superior a 1% no início da tarde desta sexta-feira (28), enquanto o dólar teve valorização moderada em relação ao real
Nem tudo é verdade: Ibovespa reage a balanços e dados de emprego em dia de PCE nos EUA
O PCE, como é conhecido o índice de gastos com consumo pessoal nos EUA, é o dado de inflação preferido do Fed para pautar sua política monetária
Não existe almoço grátis no mercado financeiro: verdades e mentiras que te contam sobre diversificação
A diversificação é uma arma importante para qualquer investidor: ajuda a diluir os riscos e aumenta as chances de você ter na carteira um ativo vencedor, mas essa estratégia não é gratuita
Tarifas de Trump derrubam montadoras mundo afora — Tesla se dá bem e ações sobem mais de 3%
O presidente norte-americano anunciou taxas de 25% sobre todos os carros importados pelos EUA; entenda os motivos que fazem os papéis de companhias na América do Norte, na Europa e na Ásia recuarem hoje
110% do CDI e liquidez imediata — Nubank lança nova Caixinha Turbo para todos os clientes, mas com algumas condições; veja quais
Nubank lança novo investimento acessível a todos os usuários e notificará clientes gradualmente sobre a novidade
Esporte radical na bolsa: Ibovespa sobe em dia de IPCA-15, relatório do Banco Central e coletiva de Galípolo
Galípolo concederá entrevista coletiva no fim da manhã, depois da apresentação do Relatório de Política Monetária do BC
Rodolfo Amstalden: Buy the dip, e leve um hedge de brinde
Para o investidor brasileiro, o “buy the dip” não só sustenta uma razão própria como pode funcionar também como instrumento de diversificação, especialmente quando associado às tecnologias de ponta
Ato falho relevante: Ibovespa tenta manter tom positivo em meio a incertezas com tarifas ‘recíprocas’ de Trump
Na véspera, teor da ata do Copom animou os investidores brasileiros, que fizeram a bolsa subir e o dólar cair
Dólar atinge o menor patamar desde novembro de 2024: veja como buscar lucros com a oscilação da moeda
A recente queda do dólar pode abrir oportunidades estratégicas para investidores atentos; descubra uma forma inteligente de expor seu capital neste momento
Nubank expande sua plataforma de criptomoedas e adiciona 4 novas altcoins ao app — cardano (ADA) entre elas
Banco digital adiciona cardano (ADA), NEAR protocol (NEAR), cosmos (ATOM) e algorand (ALGO), elevando para 20 o número de criptoativos disponíveis na plataforma
É hora de comprar a líder do Ibovespa hoje: Vamos (VAMO3) dispara mais de 17% após dados do 4T24 e banco diz que ação está barata
A companhia apresentou os primeiros resultados trimestrais após a cisão dos negócios de locação e concessionária e apresenta lucro acima das projeções
Sem sinal de leniência: Copom de Galípolo mantém tom duro na ata, anima a bolsa e enfraquece o dólar
Copom reitera compromisso com a convergência da inflação para a meta e adverte que os juros podem ficar mais altos por mais tempo