Lama em Brasília e temor com Fed levam Ibovespa a apagar ganhos do ano e recuar 2% na semana; dólar vai a R$ 5,38
Os mercados tiveram um dia positivo nesta sexta-feira, com alta na bolsa e queda do dólar, mas isso não esconde o complicado caminho que deve ser enfrentado pelos investidores

A sinalização mais forte do Federal Reserve sobre o avanço nas discussões e a possibilidade de início da redução de estímulos monetários ainda este ano seria a grande candidata a maior surpresa da semana. Isso se o Ibovespa não tivesse conseguido remar contra a corrente e anotar dois dias consecutivos de alta, mesmo diante de um complicado cenário doméstico.
O principal índice da bolsa brasileira pegou carona na melhora do humor em Nova York, puxada pelas empresas de tecnologia, para apagar parte das perdas do começo da semana. Para Ariane Benedito, economista da CM Capital, após uma forte temporada de balanços do segundo trimestre, o mercado viu espaço para uma tempestade perfeita: com o clima em Brasília pesando sobre a precificação do mercado, os bons resultados das companhias brasileiras, acompanhados de uma melhora dos indicadores econômicos, abriu espaço para um bom ponto de entrada.
A alta de 0,76%, aos 116.040 pontos, no entanto, foi insuficiente para reverter o dano deixado pelos três pregões seguidos de queda e a semana terminou em uma nota amarga — um recuo de 2,59% na semana, o que apaga completamente os ganhos do ano e deixa o Ibovespa com um saldo negativo de 0,81%.
Com o Fed já pensando na retirada de estímulos, o dólar se fortaleceu em nível global e acumulou uma alta de 2,66% na semana mesmo com o recuo de 0,70%, a R$ 5,3848, registrado hoje.
Mas é preciso ir com calma. Os últimos dias foram positivos, mas os analistas sabem que o mau humor que tomou conta dos mercados globais nesta semana está longe de terminar.
Lá fora, a variante delta traz incerteza às grandes economias e a redução de estímulos no horizonte deve seguir levando cautela. Por aqui, as coisas são ainda mais complicadas.
Leia Também
Barrando todas as outras pautas no Congresso, a reforma do imposto de renda foi adiada mais uma vez e deve sofrer mais mudanças. Mesmo assim, não existem garantias de que o texto seja aprovado. A PEC dos Precatórios voltou a ser enfaticamente defendida pelo ministro da Economia Paulo Guedes, mas preocupa: ou tira os R$ 90 bilhões do teto de gastos ou este é eliminado.
Um alinhamento entre Legislativo, Executivo e Judiciário seria o ideal para uma saída mais agradável para a crise, mas isso dificilmente deve acontecer nas próximas semanas. O presidente Jair Bolsonaro encaminhou ao Congresso o pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes e segue causando ruídos que queimam o filme do Brasil, trazendo incerteza para o investidor e muita volatilidade aos negócios.
Diante de um cenário de instabilidade, grande pressão inflacionária e retirada de estímulos nos Estados Unidos, o mercado de juros disparou. Hoje o dia foi de alívio, mas foi preciso que o BC interviesse na oferta de títulos e que o presidente Roberto Campos Neto reforçasse o compromisso com as metas de inflação. Confira as taxas de fechamento do dia:
- Janeiro/22: de 6,72% para 6,69%
- Janeiro/23: de 8,48% para 8,40%
- Janeiro/25: de 9,70% para 9,56%
- Janeiro/27: de 10,14% para 10,01%
Ibovespa | 0,76% | 116.040 pontos |
Dólar à vista | 0,70% | R$ 5,38 |
Bitcoin | 4,68% | 263.900 pontos |
Nasdaq | 1,19% | 14.714 pontos |
S&P 500 | 0,81% | 4.441 pontos |
Dow Jones | 0,65% | 35.120 pontos |
Qual investimento foi mais impactado?
Depois de saber como o mercado fechou essa semana, que tal entender como seus investimentos reagiram? Confere aqui como o Real Valor pode te ajudar!
A pedra no sapato de Guedes
A reforma do Imposto de Renda foi mais uma vez adiada, dando mais tempo para que pressões setoriais sejam aceitas, e a PEC dos Precatórios está longe de ser um consenso — esses são dois fatores que estão dando dor de cabeça ao ministro da Economia, Paulo Guedes.
Enquanto os temas não andam, o Congresso fica travado e o tempo do governo para a aprovação das reformas vai diminuindo com a proximidade de 2022. "Apesar de vermos muito mais discussão sobre os precatórios, a reforma do IR é um ponto crucial para dar andamento a outros tipos de discussão", aponta Benedito.
Não que as propostas sejam boas e resolvam a questão fiscal do país, mas, no momento, elas são a pedra no sapato. Para a economista da CM Capital, a retirada dos precatórios do teto de gastos, garantindo assim o cumprimento da meta, seria o melhor cenário no momento. "Não temos um problema de arrecadação e sim de gastos. É preciso fazer uma realocação do custo e não podemos dar um cartão de crédito sem limites na mão de um governo com histórico de péssima alocação de recursos."
Óleo na pista
A variante delta não é o único fator que traz incerteza sobre o futuro da economia global. Os últimos dados divulgados pela China dão sinais de desaceleração, e o mercado faz as contas — o que pode acontecer caso o ritmo de crescimento caia e uma nova onda do coronavírus obrigue os governos a adotarem medidas mais drásticas?
A crise no Afeganistão, com a tomada do poder por parte do grupo extremista Taleban, poderia ter segurado os preços das commodities, mas no fim das contas o medo da variante delta e da queda na demanda prevaleceu. O petróleo teve uma das suas piores semanas desde março de 2020, auge da crise do coronavírus. Já o minério de ferro, que também sofre com as ações intervencionistas da China, tombou feio e voltou ao patamar dos US$ 130 a tonelada.
Com a Vale, Petrobras e siderúrgicas impactadas, a pressão sobre o Ibovespa foi ainda maior. Para a economista da CM Capital, no entanto, as companhias brasileiras conseguiram segurar bem a derrapada das commodities no exterior, ainda que seus desempenhos tenham ficado na lanterna do Ibovespa ao longo da semana.
Virando realidade
Há alguns meses a perspectiva de redução no ritmo de compra de ativos por parte do banco central americano tem preocupado o mercado, mas agora os temores começam a se tornar realidade.
Na ata da última reunião do Federal Reserve, divulgada na quarta-feira, foi possível ver grande discordância entre os membros do Fomc, mas ficou claro que as conversas sobre a redução dos estímulos estão avançadas e que mudanças devem acontecer ainda em 2021. Mesmo que não haja uma elevação nos juros, os investidores reagiram com grande cautela.
Para Ariane Benedito, da CM Capital, assim como no Brasil, a aversão ao risco no exterior ainda deve levar um tempo para se dissipar, e o que deve servir como termômetro para o mercado são os pronunciamentos dos dirigentes do Fed marcados para os próximos dias.
Mas é bom lembrar que as bolsas americanas e europeias renovaram máximas recentemente, então um ajuste de mercado pode ser saudável neste momento. Para a economista, essas correções são pontuais, e o viés que prevalece em Wall Street é de alta. Confira o fechamento dos principais índices americanos:
- Nasdaq: 1,19% - 14.714 pontos
- S&P 500: 0,81% - 4.441 pontos
- Dow Jones: 0,65% - 35.120 pontos
Sobe e desce do Ibovespa
Com otimismo renovado sobre a possibilidade de privatização da Sabesp (SBSP3), as ações da estatal dispararam nesta sexta-feira. O ex-presidente da Câmara e deputado federal Rodrigo Maia tomou posse nesta manhã como secretário de Projetos e Ações Estratégicas de São Paulo e já deixou claro que a privatização da empresa de saneamento deve ser uma das prioridades da sua gestão e que deve ser entregue até o final do governo de João Doria.
"Acho que é uma coisa simbólica organizar a privatização, a concessão, deixar isso organizado até o final da minha gestão". Ao comentar o tema, o novo secretário disse que ainda estuda a pasta, mas que 'a questão da privatização da Sabesp' já foi tratada com o vice-governador Rodrigo Garcia.
A alta da ação foi suficiente para colocar a companhia de saneamento no topo da tabela de maiores altas da semana:
CÓDIGO | NOME | VALOR | VARSEM |
SBSP3 | Sabesp ON | R$ 36,55 | 8,81% |
QUAL3 | Qualicorp ON | R$ 20,58 | 8,54% |
CMIG4 | Cemig PN | R$ 12,49 | 7,95% |
CCRO3 | CCR ON | R$ 12,71 | 7,08% |
CPFE3 | CPFL Energia ON | R$ 28,05 | 6,17% |
Confira também as maiores quedas do dia:
CÓDIGO | NOME | VALOR | VARSEM |
USIM5 | Usiminas PNA | R$ 17,10 | -19,15% |
CSNA3 | CSN ON | R$ 36,94 | -13,31% |
GGBR4 | Gerdau PN | R$ 27,65 | -10,11% |
VALE3 | Vale ON | R$ 97,55 | -9,93% |
BRAP4 | Bradespar PN | R$ 63,47 | -9,46% |
O combo do mal: dólar dispara mais de 3% com guerra comercial e juros nos EUA no radar
Investidores correm para ativos considerados mais seguros e recaculam as apostas de corte de juros nos EUA neste ano
Carrefour Brasil (CRFB3): controladora oferece prêmio mais alto em tentativa de emplacar o fechamento de capital; ações disparam 10%
Depois de pressão dos minoritários e movimentações importantes nos bastidores, a matriz francesa elevou a oferta. Ações disparam na bolsa
Um café e um pão na chapa na bolsa: Ibovespa tenta continuar escapando de Trump em dia de payroll e Powell
Mercados internacionais continuam reagindo negativamente a Trump; Ibovespa passou incólume ontem
Cardápio das tarifas de Trump: Ibovespa leva vantagem e ações brasileiras se tornam boas opções no menu da bolsa
O mais importante é que, se você ainda não tem ações brasileiras na carteira, esse me parece um momento oportuno para começar a fazer isso
Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3) perdem juntas R$ 26 bilhões em valor de mercado e a culpa é de Trump
Enquanto a petroleira sofreu com a forte desvalorização do petróleo no mercado internacional, a mineradora sentiu os efeitos da queda dos preços do minério de ferro
Bitcoin (BTC) em queda — como as tarifas de Trump sacudiram o mercado cripto e o que fazer agora
Após as tarifas do Dia da Liberdade de Donald Trump, o mercado de criptomoedas registrou forte queda, com o bitcoin (BTC) recuando 5,85%, mas grande parte dos ativos digitais conseguiu sustentar valores em suportes relativamente elevados
Obrigado, Trump! Dólar vai à mínima e cai a R$ 5,59 após tarifaço e com recessão dos EUA no horizonte
A moeda norte-americana perdeu força no mundo inteiro nesta quinta-feira (3) à medida que os investidores recalculam rotas após Dia da Libertação
O Dia depois da Libertação: bolsas globais reagem em queda generalizada às tarifas de Trump; nos EUA, Apple tomba mais de 9%
O Dia depois da Libertação não parece estar indo como Trump imaginou: Wall Street reage em queda forte e Ibovespa tem leve alta
Trump Day: Mesmo com Brasil ‘poupado’ na guerra comercial, Ibovespa fica a reboque em sangria das bolsas internacionais
Mercados internacionais reagem em forte queda ao tarifaço amplo, geral e irrestrito imposto por Trump aos parceiros comerciais dos EUA
Tarifas de Trump levam caos a Nova York: no mercado futuro, Dow Jones perde mais de 1 mil pontos, S&P 500 cai mais de 3% e Nasdaq recua 4,5%; ouro dispara
Nas negociações regulares, as principais índices de Wall Street terminaram o dia com ganhos na expectativa de que o presidente norte-americano anunciasse um plano mais brando de tarifas
Rodolfo Amstalden: Nos tempos modernos, existe ERP (prêmio de risco) de qualidade no Brasil?
As ações domésticas pagam um prêmio suficiente para remunerar o risco adicional em relação à renda fixa?
Efeito Trump? Dólar fica em segundo plano e investidores buscam outras moedas para investir; euro e libra são preferência
Pessimismo em relação à moeda norte-americana toma conta do mercado à medida que as tarifas de Trump se tornam realidade
Brasil não aguarda tarifas de Trump de braços cruzados: o último passo do Congresso antes do Dia da Libertação dos EUA
Enquanto o Ibovespa andou com as próprias pernas, o Congresso preparava um projeto de lei para se defender de tarifas recíprocas
Natura &Co é avaliada em mais de R$ 15 bilhões, em mais um passo no processo de reestruturação — ações caem 27% no ano
No processo de simplificação corporativa após massacre na bolsa, Natura &Co divulgou a avaliação do patrimônio líquido da empresa
Dólar dispara com novas ameaças comerciais de Trump: veja como buscar lucros de até dólar +10% ao ano nesse cenário
O tarifaço promovido por Donald Trump, presidente dos EUA, levou o dólar a R$ 5,76 na última semana – mas há como buscar lucros nesse cenário; veja como
Em busca de proteção: Ibovespa tenta aproveitar melhora das bolsas internacionais na véspera do ‘Dia D’ de Donald Trump
Depois de terminar março entre os melhores investimentos do mês, Ibovespa se prepara para nova rodada da guerra comercial de Trump
Tarifaço de Trump aciona modo cautela e faz do ouro um dos melhores investimentos de março; IFIX e Ibovespa fecham o pódio
Mudanças nos Estados Unidos também impulsionam a renda variável brasileira, com estrangeiros voltando a olhar para os mercados emergentes em meio às incertezas na terra do Tio Sam
Trump Media estreia na NYSE Texas, mas nova bolsa ainda deve enfrentar desafios para se consolidar no estado
Analistas da Bloomberg veem o movimento da empresa de mídia de Donald Trump mais como simbólico do que prático, já que ela vai seguir com sua listagem primária na Nasdaq
Vale tudo na bolsa? Ibovespa chega ao último pregão de março com forte valorização no mês, mas de olho na guerra comercial de Trump
O presidente dos Estados Unidos pretende anunciar na quarta-feira a imposição do que chama de tarifas “recíprocas”
Nova York em queda livre: o dado que provoca estrago nas bolsas e faz o dólar valer mais antes das temidas tarifas de Trump
Por aqui, o Ibovespa operou com queda superior a 1% no início da tarde desta sexta-feira (28), enquanto o dólar teve valorização moderada em relação ao real