Back in Brazil! Por que os gringos voltaram à bolsa — e o que pode afastá-los de novo
B3 tem fluxo robusto dos investidores estrangeiros em novembro diante de boas condições globais. Conheça quatro razões para o retorno dos gringos

Novembro foi realmente um mês histórico para a bolsa. Em um ano marcado para uma pandemia sem proporções na história recente, o Ibovespa fechou o mês passado com a melhor performance desde 1999, superando o desempenho de todos os mercados mundiais.
O principal índice da B3 subiu, em dólares, 23,5% no mês passado, seguido pelo indicador da Bolsa de Valores de Moscou, que teve valorização de 20,2%.
O desempenho foi tão bom que atenuou a queda vista no acumulado do ano – o Ibovespa entrou em novembro com uma perda total de 20,7% e saiu com um recuo de 8,1%. Até o momento, dezembro parece seguir essa tendência, com o índice acumulando alta de quase 6%, ajudando a atenuar o resultado no ano – queda de 0,26%.
Um dos motivos para esta melhora é a volta dos investidores estrangeiros, que vieram ao País com a carteira aberta. A Bolsa brasileira nunca viu tanto dinheiro vindo de fora como em novembro. No mês passado, o fluxo alcançou R$ 30 bilhões, o maior valor desde 1995, quando esse dado começou a ser computado.
O movimento se mantém em dezembro. Até o dia 10, os ingressos de recursos vindo de fora para a Bolsa somaram R$ 7,54 bilhões, com compras totalizando R$ 130,9 bilhões e as vendas somando R$ 123,4 bilhões.
No ano, porém, a saída de estrangeiros ainda soma R$ 44 bilhões, mostrando que o movimento de volta é relativamente recente. Ao considerar recursos que entraram para ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) e ofertas subsequentes (follow ons), o saldo é negativo em R$ 24,4 bilhões.
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Num momento em que o rumo das contas públicas é motivo de questionamentos, qual a razão para a volta dos estrangeiros ao país? Eu conversei com diversos gestores e trago a seguir quatro motivos pelos quais os estrangeiros estão voltando, o que eles estão buscando e o que pode reverter este fluxo:
1. Otimismo pelo mundo
Não é preciso nem dizer como 2020 foi ruim para os mercados. Uma pandemia sem precedentes históricos interrompeu as atividades em todo o mundo, derrubando todas as bolsas de valores.
Mas o mundo começa a ver luz no fim do túnel. As notícias de que várias vacinas contra covid-19 devem estar disponíveis ao grande público no começo do ano que vem deram coragem aos investidores, que passaram a se arriscar mais.
O sentimento positivo também tem a ver com as eleições nos Estados Unidos. A escolha de Joe Biden à presidência agradou, dado seu perfil bem mais moderado comparado a Donald Trump e sua postura mais pró-comércio global.
A composição do Congresso, com os republicanos conseguindo manter o controle do Senado, dissipou medos da possibilidade de aprovação de medidas que aumentem em demasia os gastos governamentais.
“Estamos vendo a bolsa brasileira sendo levada pelos movimentos de fora do Brasil, num rali que começou e vai sendo impulsionado mais pela situação de fora do que a do país”, disse o chefe de pesquisa de ações para América Latina do BTG Pactual, Carlos Sequeira.
2. Muito dólar e câmbio favorável
O mundo também vive um momento de alta liquidez nos mercados globais. Para combater os efeitos da pandemia, os maiores bancos centrais do mundo adotaram um conjunto de medidas classificado pelos economistas de “política monetária acomodatícia”.
Basicamente, são ações voltadas para estimular a atividade dos países pelo lado monetário, como redução das taxas de juros a patamares historicamente baixos e injeção de recursos por meio de, entre outras coisas, políticas de compra de títulos públicos.
O receituário foi especialmente forte nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed) baixou os juros para uma faixa de zero a 0,25% e está comprando US$ 80 bilhões em títulos públicos e US$ 40 bilhões em títulos hipotecários por mês desde junho. Recentemente, informou que pretende manter a taxa de referência próxima a zero até o fim de 2023.
Com mais recursos disponíveis e uma perspectiva positiva em relação ao futuro, os investidores foram às compras pelo mundo. E quando olharam para o Brasil, eles encontraram um câmbio num bom patamar. As dúvidas a respeito dos riscos fiscais colaboraram para uma forte depreciação do real. No acumulado do ano, a desvalorização é de 21,4%, sendo que ela atingiu 28% em outubro.
“Nós pegamos todas as principais moedas do mundo e olhamos pelo PPP [sigla em inglês para paridade do poder de compra, um cálculo para verificar o poder de compra de diferentes moedas] para ver qual é a moeda mais atrativa e o impacto para o mercado acionário, pelos olhos do estrangeiro”, afirmou o estrategista-chefe de ações do Santander, Daniel Gewehr. “E vimos que o real está negociando dois dígitos abaixo do histórico, o que tornou a Bolsa barata em termos relativos.”
3. Rotation trade
Talvez você já tenha ouvido falar, mas os mercados estão passando pela chamada rotation trade, que nada mais é do que um movimento de troca de ações nos portfólios.
Durante a pandemia, a maioria dos investidores buscou ter ativos ligados a tecnologia e e-commerce, segmentos considerados de growth — com perspectivas de crescimento acelerado. Com a imposição de restrições à circulação de pessoas pelo mundo e fechamento do comércio, as pessoas passaram a utilizar muito mais a internet para realizar serviços, compras e se divertir.
Este é um dos principais motivos pelo qual ações de Alphabet (dona do Google), Facebook e Netflix acumulem altas de 30%, 34% e 57%, respectivamente. No Brasil, entre as beneficiadas estão Magazine Luiza (MGLU3), com alta de 95,6%, e B2W (BTOW3), com 25,5%.
Diante das perspectivas de retomada das economias e da forte valorização dos papéis das companhias “vencedoras” da pandemia, os investidores estão buscando ativos baratos e da chamada “velha” economia, principalmente daquelas companhias de maior valor e liquidez. A busca agora é por ativos com valor (value, porque em inglês é mais bonito).
“Agora que nos parece que a pandemia se aproxima do ponto de controle, a expectativa é de recuperação do mundo offline no mundo real”, disse Eduardo Mendez, chefe de mercado de capitais e renda variável para América Latina do Morgan Stanley. “Todas essas ações, que subperformaram, passam a ser percebidas como baratas.”
Dentro desta estratégia de rotação de ativos, a bolsa brasileira possui enormes oportunidades em relação a outros mercados. Quase 70% do Ibovespa é composto por ativos considerados de valor — de exportadoras de commodities, bancos, operadores de ativos de infraestrutura e shopping centers.
4. Volta da China
Epicentro da pandemia de covid-19, a China sofreu bastante entre o final de 2019 e o início deste ano, sendo um dos primeiros a paralisar as atividades para conter a proliferação do novo coronavírus.
O país asiático, porém, conseguiu se recuperar antes que todo mundo, expandindo 4,9% no terceiro trimestre. E ao contrário da maioria, deve fechar o ano com crescimento, ainda que de 1,9%, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), abaixo das expansões de dois dígitos que apresentou ao longo das últimas duas décadas.
Pequim lançou mão de incentivos fiscais para reiniciar a economia, com liberação de crédito e medidas de apoio às empresas, o que resultou na volta da produção industrial, das exportações e dos investimentos em infraestrutura.
A retomada do maior parceiro comercial do País beneficia principalmente as produtoras de commodities, como por exemplo a Vale (VALE3). E as ações desses setores são justamente aquelas mais visadas pelos estrangeiros no processo de rotação das carteiras, por estarem enquadradas na categoria value.
O que pode dar errado?
Todos os analistas com quem conversei demonstraram bastante otimismo em relação a 2021. Os quatro fatores citados acima levam a crer que os estrangeiros devem continuar vindo para a Bolsa. Mas tem uma coisinha que pode atrapalhar: o descontrole das contas públicas.
Há alguns anos o Brasil registra déficits primários, vê sua dívida bruta crescer fortemente. O país esteve por um tempo controlando a trajetória dos gastos públicos, principalmente após a aprovação do teto de gastos, em 2016. Só que a pandemia forçou o governo federal a liberar recursos para a economia, por meio do auxílio emergencial de R$ 600 e empréstimos para empresas.
Nenhum economista entende que isso foi errado. A crise provocada pela covid-19 exigia uma atitude do governo para que a situação não fosse pior do que está atualmente. Mas eles afirmam que estas medidas não podem seguir em frente. Caso contrário, o Brasil quebra e perde a credibilidade na praça, afugentando os recursos vindo de fora.
A boa notícia é que os investidores estrangeiros não estão, neste momento, tão preocupados assim. “Na cabeça do estrangeiro, ele pensa ‘eles [Brasil] gastaram R$ 2 trilhões em 2020, por conta da pandemia, mas com o teto este gasto vai para R$ 1,5 trilhão’”, diz o gestor de investimentos na Kinea Investimentos, Marco Freire. “O estrangeiro está vendo que o mundo inteiro gastou dinheiro, está com juros baixos. O problema fiscal é presente em muitos outros lugares.”
Ainda que o mundo tenha aumentado os gastos para lidar com a pandemia, isso não significa que o País pode relaxar, ressaltou Freire. A situação ainda é delicada, e notícias vindo de Brasília sobre políticos buscando formas de driblar o teto de gastos não ajudam.
Mesmo que a situação fiscal tenha gerado uma taxa de câmbio favorável, um descontrole desarranja a economia de tal forma que o investimento não vale mais a pena, porque resulta em uma inflação elevada que diminui os retornos.
E é bom o governo ficar esperto. O gestor da Kinea ressaltou que os recursos internacionais não estão vindo apenas para o Brasil – nós estamos competindo com o restante dos mercados emergentes. E sinalizações negativas a respeito das contas públicas afugentam quem inicialmente teria interesse.
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