Na era das taxas de juros negativas, o zero a zero já é lucro
Níveis de inflação baixíssimos, pelo menos para os padrões brasileiros, estão mudando o hábito das pessoas. Quer comprar algo, ou fazer uma aplicação? Dá para se estudar com calma

Em 1966, ano em que estudava Mercado de Capitais, com especialização em portfólio management, na Universidade de Nova York (NYU), abri minha primeira conta bancária em dólares. Foi numa agência do Citibank (na época, First National City Bank) em Brooklyn Heights, próxima ao meu apartamento.
Não era muita coisa, uns mil dólares, equivalentes hoje a US$ 8.000,00. Nessa ocasião, perguntei ao sub do sub gerente que me atendeu se aquele dinheiro me daria algum rendimento.
Ele só faltou rir na minha cara. Disse que eu teria de pagar uma taxa anual para que eles guardassem minha grana e me dessem talões de cheques personalizados, com capa imitando couro.
“Não, não preciso disso”, me apressei em dizer. “Pode ser um talão desses comuns.”
“Nós só trabalhamos com esse tipo de cheque”, o cara estava louco para passar para o próximo cliente.
Foi meu primeiro contato com juros negativos. Pagar a alguém para ficar com o dinheiro e emprestá-lo a juros para terceiros.
Leia Também
Ah, já ia me esquecendo de um detalhe. Para cada cheque que emitisse, eu teria de pagar algo como 10 centavos de dólar. Isso me parecia uma extorsão, um achaque.
Mesmo desgostoso com aquela “ladroagem”, abri a conta. Afinal, teria de pagar mensalmente o aluguel do meu apartamento e a administradora não aceitava dinheiro. Fora outras coisas, como multas de trânsito.
Terminado meu curso, voltei para o mercado financeiro do Brasil, onde trabalhava desde 1958. Nas décadas que se seguiram, peguei toda a fase de inflação galopante, hiperinflação, mudança de moedas, tablitas deflatoras e choques heterodoxos.
Durante todo esse tempo, o dinheiro posto nos bancos era remunerado, mesmo o das contas-correntes, qualquer que fosse o valor. Pena que 70% dos brasileiros não tinham conta bancária.
Nos anos 1980, numa ocasião em que a inflação era de mais ou menos 10% ao mês, um governador da Região Norte fazia uma mágica tal que alguns pagamentos do tesouro estadual se hospedavam por dois ou três dias na conta bancária de uma entidade laranja que ele controlava, faturando o rendimento do open market no período. Depois seguiam para o seu destino orçamentário.
Com isso, ele ficou rico. Mas chegou a ser algemado pela Polícia Federal e posto na cadeia. Só que, naqueles tempos pré Lava-Jato, esse tipo de coisa não dava em nada. E realmente não deu no caso do fulano em questão, cujo nome não cito pois sempre há a hipótese dele ter sido absolvido e ainda vir me processar por calúnia e difamação .
Já na fase de ouro do político baiano Geddel Vieira Lima, o cenário mudara completamente. Com taxas de juro e inflação baixas, e os federais dando em cima de larápios do dinheiro público, ele se deu ao luxo de guardar 51 milhões de reais, em dinheiro vivo, num apartamento de Salvador.
Mudança de hábito
Níveis de inflação baixíssimos, pelo menos para os padrões brasileiros, estão mudando o hábito das pessoas. Quer comprar algo, ou fazer uma aplicação? Dá para se estudar com calma.
Resultado: consumidores adiam seus gastos, o comércio vende pouco, os preços não sobem, a taxa Selic bate recordes negativos, um atrás do outro.
Isso não é só no Brasil. Com poucas exceções (Venezuela, Argentina, Zimbábue, etc.), o mundo mudou. Ao redor dos 24 fusos horários, jogar para o zero é zero é um tremendo lucro.
No Japão, por exemplo, os títulos do governo de dois, cinco e dez anos têm “rentabilidade” negativa respectivamente de -0,31%, -0,35% e -0,26%. É quanto os japoneses pagam para guardar sua poupança.
Se você é norte-americano, e aplica em iene, pode até ganhar dinheiro. Basta que a moeda japonesa se valorize contra o dólar. Mas como os japoneses gastam e poupam em iene, nem o zero a zero eles conseguem alcançar. Só que se trata de um povo à parte, viciado em poupar, herança da penúria pós Segunda Guerra quando a população passou fome.
Para os alemães, a situação é pior. Seus títulos públicos de 2, 5, 10 e 30 anos “rendem” -0,88%, -0,89%, -0,64% e -0,09%. E, como se isso não bastasse, o euro se deprecia frente ao dólar.
Em outros países do mundo rico, o panorama é parecido. A Suíça toma 0,75% a.a. para ficar com seu dinheiro; a Dinamarca, 0,65% a.a. e a Suécia, 0,50% a.a.
Os poupadores americanos são um dos poucos povos que, dependendo do prazo de aplicação do dinheiro, conseguem girar ao redor do zero a zero.
A tabela abaixo mostra o rendimento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
A inflação nos EUA, medida pelo CPI (sigla em inglês para Índice de Preços do Consumidor), prevista para 2019 é de 1,8%. Ou seja, alguns vencimentos ganham um pouco; outros perdem alguma coisa. No frigir dos ovos: zero a zero.
Ainda no positivo
Nos países não muito confiáveis, como, infelizmente, é o caso do Brasil, as taxas de juros reais ainda são positivas. Mas estão em seus lows históricos.
Tudo que escrevi acima mostra por que os investidores, especuladores e gestores de fundos estão migrando da renda fixa para a variável. Mas migram com medo. Ao primeiro sinal forte (indícios, já existem vários) de que teremos uma recessão mundial, as bolsas de valores podem levar um tombaço.
Uma coisa é deixar o governo de uma nação rica tomar de você algo como meio por cento ao ano para ficar com seu dinheiro. Outra é levar uma porretada de 20% na Bolsa.
Se houver um crash, mesmo que seja um minicrash, generalizado, não há de ser o Brasil que vai escapar da crise. Só o Lula que acha (ou pelo menos achava) que as marolinhas não chegam até aqui.
Chegam sim. Pior: podem chegar sob a forma das ondas que se enrolam em tubos gigantescos como os da praia de Nazaré em Portugal.
No mercado brasileiro, houve épocas em que era possível calcular o montante necessário que, aplicado em títulos de renda fixa do Tesouro, ou em CDBs dos bancos, dava para se viver, só de juros, até o fim da vida.
Num horizonte descortinável, isso simplesmente acabou. Quer ver? Vamos a um exemplo.
Digamos que você necessite de 15 mil reais por mês para se manter com certo conforto e dignidade até o final de seus dias.
Aplicando num fundo de renda fixa sólido, que renda dois por cento ao ano, já descontada a inflação, você precisa fazer um investimento de nove milhões de reais para sacar os R$ 15.000,00 todo mês sem erosão do capital.
Convenhamos: para quem dispõe de R$ 9 milhões (pouco mais de dois milhões de dólares), 15 mil reais por mês é pouco. Então vai ter de mudar para um imóvel mais barato, quem sabe vender a casa de campo ou de praia. Enfim, descapitalizar. Baixar o padrão de vida.
A moda do ouro
Talvez por isso, a moda atualmente seja aplicar em ouro. Como a cotação do metal, tanto em dólares como em reais, tem subido consideravelmente, nos últimos tempos esse investimento vem rendendo bastante.
Acontece que ouro não dá dividendos nem paga juros. Propicia apenas valorização. Quando está subindo, é óbvio. Além disso, é preciso pagar uma taxa de custódia ou aluguel de um cofre bancário, quando se trata de ouro físico, ou arcar com o custo de rolamento da posição na hipótese do mercado futuro.
Sem querer ser estraga-prazer de ninguém, gostaria de lembrar que, à medida em que o preço do ouro sobe, minas antigas são reativadas, a atividade mineradora cresce, novas jazidas são prospectadas em lugares remotos da Sibéria, da Antártica e até do fundo dos oceanos.
Não é por acaso que faiscadores clandestinos estão esburacando a Amazônia.
Quer retorno? Tome risco
Nesses mais de 60 anos nos quais acompanho o mercado, nunca me deparei com uma época em que a decisão sobre a escolha de um bom investimento fosse tão difícil.
Uma coisa, posso garantir. Caso seu dinheiro esteja aplicado num rendimento 100% seguro, você não está ganhando nada. Lucro agora, só no risco, como é o caso do mercado de ações e de ouro.
Ainda existem apostas arriscadas (algumas, arriscadíssimas) que podem dar retornos excepcionais. Entre elas, calls (opções de compra) e puts (de venda) fora do dinheiro, criptomoedas... Isso sem falar de títulos da dívida pública da Venezuela e da Argentina.
Sempre há também algumas ações de empresas em recuperação judicial que podem sair do buraco.
Por muito tempo teremos de conviver com juros baixos. O risco de inflação também é mínimo.
Alguns bancos centrais, como o do Japão, por exemplo, já esgotaram suas opções de política monetária expansionista. A dívida pública japonesa é simplesmente o dobro do PIB do país.
Esses estímulos têm limite. O Brasil, por exemplo, dificilmente poderá praticar taxas de juros reais negativas. Taxas absolutas abaixo de zero, nem pensar.
Minha esperança é que, com as mudanças liberais em curso, sem que haja uma forte oposição a elas, como não está havendo, daqui a pouco a gente descubra que já tenhamos encontrado o fundo do poço do atraso.
Quem sabe Roberto Campos se enganou quando disse que “a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor.”
Coisas impensáveis há até pouquíssimo tempo estão acontecendo. Mudanças na legislação trabalhista anacrônica, que prejudica empregados e patrões, avanços no programa de privatização e de enxugamento do estado.
Tomara que a gente, mesmo sem perceber, já tenha saído da era da burrice sistêmica, vamos estacionar alguns meses no zero a zero e depois seguir em frente.
O espaço para cima é gigantesco, praticamente sideral.
Nova York em queda livre: o dado que provoca estrago nas bolsas e faz o dólar valer mais antes das temidas tarifas de Trump
Por aqui, o Ibovespa operou com queda superior a 1% no início da tarde desta sexta-feira (28), enquanto o dólar teve valorização moderada em relação ao real
Nem tudo é verdade: Ibovespa reage a balanços e dados de emprego em dia de PCE nos EUA
O PCE, como é conhecido o índice de gastos com consumo pessoal nos EUA, é o dado de inflação preferido do Fed para pautar sua política monetária
110% do CDI e liquidez imediata — Nubank lança nova Caixinha Turbo para todos os clientes, mas com algumas condições; veja quais
Nubank lança novo investimento acessível a todos os usuários e notificará clientes gradualmente sobre a novidade
Esporte radical na bolsa: Ibovespa sobe em dia de IPCA-15, relatório do Banco Central e coletiva de Galípolo
Galípolo concederá entrevista coletiva no fim da manhã, depois da apresentação do Relatório de Política Monetária do BC
Ato falho relevante: Ibovespa tenta manter tom positivo em meio a incertezas com tarifas ‘recíprocas’ de Trump
Na véspera, teor da ata do Copom animou os investidores brasileiros, que fizeram a bolsa subir e o dólar cair
Selic em 14,25% ao ano é ‘fichinha’? EQI vê juros em até 15,25% e oportunidade de lucro de até 18% ao ano; entenda
Enquanto a Selic pode chegar até 15,25% ao ano segundo analistas, investidores atentos já estão aproveitando oportunidades de ganhos de até 18% ao ano
Sem sinal de leniência: Copom de Galípolo mantém tom duro na ata, anima a bolsa e enfraquece o dólar
Copom reitera compromisso com a convergência da inflação para a meta e adverte que os juros podem ficar mais altos por mais tempo
Cuidado com a cabeça: Ibovespa tenta recuperação enquanto investidores repercutem ata do Copom
Ibovespa caiu 0,77% na segunda-feira, mas acumula alta de quase 7% no que vai de março diante das perspectivas para os juros
Inocentes ou culpados? Governo gasta e Banco Central corre atrás enquanto o mercado olha para o (fim da alta dos juros e trade eleitoral no) horizonte
Iminência do fim do ciclo de alta dos juros e fluxo global favorecem, posicionamento técnico ajuda, mas ruídos fiscais e políticos impõem teto a qualquer eventual rali
Felipe Miranda: Dedo no gatilho
Não dá pra saber exatamente quando vai se dar o movimento. O que temos de informação neste momento é que há uma enorme demanda reprimida por Brasil. E essa talvez seja uma informação suficiente.
Eles perderam a fofura? Ibovespa luta contra agenda movimentada para continuar renovando as máximas do ano
Ata do Copom, balanços e prévia da inflação disputam espaço com números sobre a economia dos EUA nos próximos dias
Agenda econômica: Ata do Copom, IPCA-15 e PIB nos EUA e Reino Unido dividem espaço com reta final da temporada de balanços no Brasil
Semana pós-Super Quarta mantém investidores em alerta com indicadores-chave, como a Reunião do CMN, o Relatório Trimestral de Inflação do BC e o IGP-M de março
Juros nas alturas têm data para acabar, prevê economista-chefe do BMG. O que esperar do fim do ciclo de alta da Selic?
Para Flávio Serrano, o Banco Central deve absorver informações que gerarão confiança em relação à desaceleração da atividade, que deve resultar em um arrefecimento da inflação nos próximos meses
Co-CEO da Cyrela (CYRE3) sem ânimo para o Brasil no longo prazo, mas aposta na grade de lançamentos. ‘Um dia está fácil, outro está difícil’
O empresário Raphael Horn afirma que as compras de terrenos continuarão acontecendo, sempre com análises caso a caso
Não fique aí esperando: Agenda fraca deixa Ibovespa a reboque do exterior e da temporada de balanços
Ibovespa interrompeu na quinta-feira uma sequência de seis pregões em alta; movimento é visto como correção
Deixou no chinelo: Selic está perto de 15%, mas essa carteira já rendeu mais em três meses
Isso não quer dizer que você deveria vender todos os seus títulos de renda fixa para comprar bolsa neste momento, não se trata de tudo ou nada — é até saudável que você tenha as duas classes na carteira
Warren Buffett enriquece US$ 22,5 bilhões em 2025 e ultrapassa Bill Gates — estratégia conservadora se prova vencedora
Momento de incerteza favorece ativos priorizados pela Berkshire Hathaway, levando a um crescimento acima da média da fortuna de Buffett, segundo a Bloomberg
Ainda sobe antes de cair: Ibovespa tenta emplacar mais uma alta após decisões do Fed e do Copom
Copom elevou os juros por aqui e Fed manteve a taxa básica inalterada nos EUA durante a Super Quarta dos bancos centrais
Rodolfo Amstalden: As expectativas de conflação estão desancoradas
A principal dificuldade epistemológica de se tentar adiantar os próximos passos do mercado financeiro não se limita à já (quase impossível) tarefa de adivinhar o que está por vir
Renda fixa mais rentável: com Selic a 14,25%, veja quanto rendem R$ 100 mil na poupança, em Tesouro Selic, CDB e LCI
Conforme já sinalizado, Copom aumentou a taxa básica em mais 1,00 ponto percentual nesta quarta (19), elevando ainda mais o retorno das aplicações pós-fixadas