Como adaptar seus investimentos à Guerra Comercial?
Agenda é razoavelmente fraca hoje e investidores aguardam ata do Fed e novos desdobramentos das conversas sobre guerra comercial

“Algumas pessoas pensam equivocadamente que a seleção natural significa 'sobrevivência dos perfeitamente adaptados'. Darwin nunca usou essa frase (ela foi cunhada em 1864 por Herbert Spencer), tampouco poderia tê-la usado, porque a seleção natural é melhor descrita pela expressão ‘sobrevivência dos mais adaptados em relação a outros’. A seleção natural não produz a perfeição; ela apenas elimina do jogo aqueles suficientemente azarados a ponto de não serem tão adaptados quanto os demais.”
Esse é um trecho do livro “The Story of the Human Body”, de Daniel Lieberman, da universidade de Harvard. A tradução está ruim, eu sei. Não há em português — ou, ao menos, eu não consegui encontrar — similaridade perfeita para descrever com a precisão e a facilidade do inglês a diferença entre “survival of the fittest” e “survival of the fitter”.
Tomo emprestada a dinâmica darwinista, no livro empregada para a necessidade de se cuidar do próprio corpo, para empregá-la ao contexto dos investimentos.
Primeiro porque, como leitor de Gerd Gigerenzer, gosto sempre de lembrar que a única definição possível para racionalidade se liga ao viés evolucionário e à sobrevivência. Isso fere de morte a proposta típica dos economistas, em que somos máquinas perfeitas de cálculo de probabilidade e de processamento/armazenamento de informação. E fere também algumas das ideias das Finanças Comportamentais, incapazes de perceber, por exemplo, como é perfeitamente racional sermos avessos ao risco diante de uma situação boa e amantes do risco em uma situação ruim — se você está com câncer terminal, faz todo sentido participar de um novo tipo de tratamento que pode causar importantes efeitos colaterais; já se está bastante saudável, dificilmente vai topar igual procedimento.
Além disso, porque vejo com certa frequência tentativas de investidores tentando “os mais adaptados entre todos”, aqueles com o melhor portfólio do mercado, que mais vai subir pelos próximos meses e anos. “Qual é a melhor ação para comprar?” “Qual é o ativo perfeito?” “Qual é a estratégia ótima?”
Ponto central
Na minha visão, um dos pontos centrais a se entender sobre gestão de patrimônio é que não há certo ou errado nesse jogo. Ou melhor: talvez até haja algumas coisas claramente erradas. Mas certo mesmo, no sentido de uma decisão perfeita, ótima, maximizadora, não existe. Estamos sempre num ambiente de escolha sob incerteza, tendo de optar por qual lugar estaremos no triângulo cujas três pontas são risco, retorno e liquidez. Esse é um dos trilemas clássicos da Economia, um dos trade-offs mais elementares. Se você quer um pouco mais de retorno, vai incorrer em mais risco. Se quer mais segurança, vai abrir mão de retorno.
Leia Também
Deixe-me tentar explicar o tamanho do problema de outra forma. Você está montando sua carteira hoje. Se você é como eu e não é algum tipo de místico capaz de enxergar o futuro, pensa nas mais variadas possibilidades de cenário à frente. Toma uma decisão prática do que comprar e vender hoje, sendo que só vai saber os resultados no futuro. Tudo que você sabe agora é que, com alguma probabilidade, por menor que seja, todas as opções de cenário levantadas na sua cabeça podem acontecer. Então, ponderando pelas probabilidades, todos esses cenários precisam, em maior ou menor grau, estar representados na sua alocação atual.
A não ser que você seja louco ou irresponsável, não vai para uma aposta do tipo “all-in”, em que se posiciona apenas para um dos cenários ventilados por você mesmo. Você pode até ter um cenário de maior convicção, mas não há garantia nenhuma de que ele será materializado. Acreditar que você pode, ex-ante, determinar qual das possibilidades vai ser concretizada à frente é de uma arrogância atroz. E como diria Adam Grant, minha nova equação favorita está aqui: arrogância = ignorância + convicção.
Esteja preparado
Então, chegamos necessariamente a uma decisão subótima e não maximizadora, por mera construção lógica. Você vai montar seu portfólio para estar preparado para todos os cenários possíveis à frente (já que não sabe qual será, de fato, o futuro). Contudo, nós já sabemos, de cara, que apenas um dos cenários vai ser tangibilizado à frente. Você precisa estar pronto para todas as possibilidades, mesmo sabendo que apenas uma delas vai se tornar real. Percebe o problema? Não há, nem pode haver match perfeito.
Isso só vai acontecer se você tiver montado seu portfólio para contemplar apenas um cenário possível à frente. Contudo, aquilo foi somente irresponsabilidade. A história não conta o que poderia ter sido. Seleciona vencedores e vencidos aleatoriamente.
Os líderes dos rankings são apenas aqueles que se alavancaram ou se concentraram num único cenário e, por influência da sorte, viram seu cenário projetado ex-ante sair como concreto ao final do processo. Mas poderia ter sido qualquer outro, entende?
Num portfólio para qualquer cenário, ou naquilo que Ray Dalio chama de All Weather Portfolio, necessariamente teremos coisas redundantes, aparentemente não eficientes. Isso porque queremos — e precisamos — estar preparados para as mais diversas possibilidades.
O sujeito que aparece como líder do ranking, cuja aparência é de estar “perfeitamente adaptado”, estava preparado para aquele cenário que se materializou. Se você vai viajar e leva apenas roupa de calor, tem a vantagem de carregar menos peso e fazer uma travessia mais confortável. Se, de fato, só fizer calor, ótimo para você, o gênio da tal viagem, candidato a nova Maju Coutinho. Agora, e se fizer frio e chover? Não era melhor ter levado aquele seu coletinho favorito North Face e guarda-chuva, ainda que ocupassem um lugar relevante na mala?
Duas ideias
Há duas ideias aqui, que podem até ser vistas como a mesma para falar a real. Certamente, tratam do mesmo tema: a guerra comercial e seus impactos sobre os mercados. Essa é a grande questão da semana — hoje mesmo, as Bolsas estão em queda diante de notícias de que a China não estaria disposta a um acordo amplo com os EUA. De acordo com a imprensa, os chineses querem excluir da pauta a política industrial e subsídios governamentais. Supostamente, as negociações entre os dois países serão retomadas de maneira formal na quinta-feira, de tal modo que a semana deve mesmo ser dominada por esse assunto.
Do ponto de vista da racionalidade ecológica de Gerd Gigerenzer, identifico dois cavaleiros de Thanatos marchando de forma acelerada em direção ao precipício. Não parece razoável supor que ambos vão mesmo se jogar lá embaixo e se matar. O instinto de sobrevivência deve contê-los antes disso. Até lá, porém, haverá muito ruído misturado com sinal, com os dois tentando endurecer as conversas e encontrar uma solução melhor para si.
Do ponto de vista de gestão de recursos, porém, ainda que o cenário acima seja o mais provável, não podemos tomar isso como dado. Havemos de nos preparar também para o pior. Sem expectativas ingênuas. Estar preparado não significa necessariamente sair ileso, incólume ou até mesmo mais rico. É apenas atravessar a tempestade, preservar capital e se posicionar para, quando for superada a crise, voltar a crescer. No meio da tempestade, não se pretende passar sequinho e sem amassar o terno de gala. Apenas queremos chegar do outro lado.
Em resumo, o cenário de um acordo, mesmo que restrito, nas negociações entre EUA e China e de diminuição das tensões entre os países parece o mais razoável para o momento. Sendo esse o maior risco para a economia global, a ideia é de que esse potencial desfecho reduza a probabilidade de uma recessão mundial e mantenha um crescimento, ainda que moderado, da economia norte-americana por todo 2020. Em sendo assim, volta a prevalecer a história doméstica para os ativos brasileiros. E essa é muito boa. Sendo assim, continuamos bem pesados em Bolsa e juro longo.
Contudo, acreditar num cenário mais provável não significa, sobremaneira, pensar num único cenário possível. Reconhecendo a possibilidade de conclusão menos favorável nas negociações entre EUA e China, mantemos proteção em dólar e ouro.
Claro que, num momento subsequente, uma das duas hipóteses vai se mostrar errada. Ou teremos um desfecho mais positivo ou mais negativo para a guerra comercial. Se for mais positivo, aqueles que se concentrarão em ativos de risco vão ser percebidos como “perfeitamente adaptados”. Se for mais negativo, esses serão comidos pela seleção natural. Nós não podemos nos dar ao luxo de incorrer na chance de sermos devorados por predadores. Nas palavras do evolucionista Warren Buffett, “para ter sucesso, primeiro você precisa sobreviver”.
Ou, como diria Charles Darwin: “A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento. São os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência”.
O perfeitamente adaptado hoje, aquele com o melhor retorno possível e que chutou ex-ante o exato cenário que iria se materializar à frente, será a presa de amanhã.
Mercados
Mercados iniciam a segunda-feira em clima predominantemente negativo, após notícias no final de semana sugerirem indisposição da China em assinar um acordo amplo com os EUA. Agenda é razoavelmente fraca hoje e investidores aguardam ata do Fed e novos desdobramentos das conversas sobre guerra comercial.
Nos EUA, temos mais um discurso de Jerome Powell, além de relatório Jolts sobre a tendência do emprego e crédito ao consumidor. Por aqui, saem boletim Focus, balança comercial e dados da Anfavea.
Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4 por cento. Dólar e juros futuros têm leve alta.
110% do CDI e liquidez imediata — Nubank lança nova Caixinha Turbo para todos os clientes, mas com algumas condições; veja quais
Nubank lança novo investimento acessível a todos os usuários e notificará clientes gradualmente sobre a novidade
Felipe Miranda: Dedo no gatilho
Não dá pra saber exatamente quando vai se dar o movimento. O que temos de informação neste momento é que há uma enorme demanda reprimida por Brasil. E essa talvez seja uma informação suficiente.
Felipe Miranda: Vale a pena investir em ações no Brasil?
Dado que a renda variável carrega, ao menos a princípio, mais risco do que a renda fixa, para se justificar o investimento em ações, elas precisariam pagar mais nessa comparação
XP rebate acusações de esquema de pirâmide, venda massiva de COEs e rentabilidade dos fundos
Após a repercussão no mercado, a própria XP decidiu tirar a limpo a história e esclarecer todas as dúvidas e temores dos investidores; veja o que disse a corretora
PGBL ou VGBL? Veja quanto dinheiro você ‘deixa na mesa’ ao escolher o tipo de plano de previdência errado
Investir em PGBL não é para todo mundo, mas para quem tem essa oportunidade, o aporte errado em VGBL pode custar caro; confira a simulação
De Minas para Buenos Aires: argentinos são a primeira frente da expansão do Inter (INBR32) na América Latina
O banco digital brasileiro anunciou um novo plano de expansão e, graças a uma parceria com uma instituição financeira argentina, a entrada no mercado do país deve acontecer em breve
XP Malls (XPML11) é desbancado por outro FII do setor de shopping como o favorito entre analistas para investir em março
O FII mais indicado para este mês está sendo negociado com desconto em relação ao preço justo estimado para as cotas e tem potencial de valorização de 15%
Mata-mata ou pontos corridos? Ibovespa busca nova alta em dia de PIB, medidas de Lula, payroll e Powell
Em meio às idas e vindas da guerra comercial de Donald Trump, PIB fechado de 2024 é o destaque entre os indicadores de hoje
Debêntures da Equatorial se destacam entre as recomendações de renda fixa para investir em março; veja a lista completa
BB e XP recomendaram ainda debêntures isentas de IR, CRAs, títulos públicos e CDBs para investir no mês
Vencimento de Tesouro Selic paga R$ 180 bilhões nesta semana; quanto rende essa bolada se for reinvestida?
Simulamos o retorno do reinvestimento em novos títulos Tesouro Selic e em outros papéis de renda fixa
Estrangeiro “afia o lápis”, mas ainda aguarda momento ideal para entrar na bolsa brasileira
Segundo o Santander, hoje, os investidores gringos mantêm posições pequenas na bolsa, mas mais inclinados a aumentar sua exposição, desde que surja um gatilho apropriado
Em raro comentário, Warren Buffett critica as tarifas de Trump e diz que “não é a Fada do Dente que pagará”
Trata-se do primeiro comentário público de Warren Buffett acerca das políticas comerciais de Trump; veja o que o bilionário disse
No país da renda fixa, Tesouro Direto atinge recorde de 3 milhões de investidores; ‘caixinhas’ e contas remuneradas ganham tração
Os números divulgados pela B3 mostram que o Tesouro IPCA e o Tesouro Selic concentram 75% do saldo em custódia em títulos públicos federais
Banco de investimentos antecipa pagamento de precatórios para até 5 dias úteis; veja como sair da fila de espera
Enquanto a fila de espera dos precatórios já registrou atraso de até 30 anos, um banco de investimentos pode antecipar o pagamento para até 5 dias úteis; veja como
A queda da Nvidia: por que empresas fantásticas nem sempre são os melhores investimentos
Por mais maravilhosa que seja uma empresa — é o caso da Nvidia —, e por mais que você acredite no potencial de longo prazo dela, pagar caro demais reduz drasticamente as chances de você ter um bom retorno
Onde investir R$ 10 mil? Simulador de investimentos indica as melhores oportunidades de acordo com o seu perfil
Seja você conservador, moderado ou arrojado, saiba onde investir com a ajuda do simulador de investimentos da EQI Research
Vale mais do que dinheiro: demanda por ouro bate recorde em um ano e investimentos explodem
Os preços mais elevados do metal precioso, no entanto, têm afetado em cheio do mercado de joias, que deve continuar em baixa em 2025
Braskem (BRKM5) quer voltar a gerar caixa — e decidiu parar de gastar dinheiro com a Oxygea; entenda a decisão da petroquímica
De acordo com comunicado, a suspensão dos investimentos no negócio está alinhada ao novo direcionamento estratégico da empresa
Ambipar (AMBP3) alcança mercado internacional e capta US$ 400 milhões em green notes – e a empresa já sabe o que fazer com o dinheiro
Os green notes, ou títulos de dívida verdes, da Ambipar foram oferecidos a investidores institucionais qualificados no exterior
O ano dos FIIs de papel? Confira os fundos imobiliários que tiveram os maiores retornos de dividendos em 2024
A alta dos juros prejudicou o desempenho dos fundos imobiliários em 2024, que impactaram no desempenho dos FIIs na bolsa. Assim, os ativos que tiveram grandes retornos podem se tornar dores de cabeça para os cotistas