Aconteceu há 90 anos: lições aprendidas na crise de 1929
Acredito que 1929 foi uma lição aprendida. Jamais os Estados Unidos serão uma nação onde todos serão ricos. Muito menos outra em que todos serão pobres, como quase foi o caso na Grande Depressão.

Quarta-feira, 23 de outubro de 1929, tarde escaldante de outono. É final da colheita de algodão nos campos agrícolas do estado do Mississippi.
Tal como faz todos os dias, Natan Will, um negro de 54 anos, descendente de escravos como todos de sua cor, trabalha colhendo algodão. As costas doem muito por estarem sempre curvadas.
- Este texto é exclusivo do Seu Dinheiro Premium e foi liberado temporariamente a todos os leitores. Quem é premium ganha também uma edição exclusiva do ebook "1929 - A Quebra da Bolsa de Nova York". Seja Premium.
Will já nem sente os cortes nas mãos, tantos foram os ferimentos desde que começou a trabalhar na colheita, em 1885, aos 10 anos de idade.
Seus dedos são um amontoado de cicatrizes sobrepostas e entrelaçadas, resultado doa cápsulas afiadas feito navalha que envolvem as bolotas de algodão.
Analfabeto, Natan mora com a mulher, Sara, que também trabalha no algodoal. O casebre de um cômodo só onde eles vivem pertence ao dono da fazenda. Os filhos já foram embora para o Norte.
Will jamais teve conta em banco e nunca ouviu falar de ações ou da Bolsa de Valores de Nova York.
Leia Também
Só que, para sua desgraça, os acontecimentos que irão ocorrer naquela metrópole, 1.500 kms a nordeste, nas próximas 24 horas, irão alterar, para pior, como se isso não fosse impossível, sua vida.
Natan Will será mais uma das dezenas de milhões de vítimas do grande crash de Wall Street, que sucederá no dia seguinte, quinta-feira, a Quinta-feira Negra. Mas, evidentemente, não faz a menor ideia disso. Fica feliz quando três badaladas de um sino assinalam que o trabalho daquele dia acabou.
90 anos depois...
Hoje, 24 de outubro de 2019, a Black Thursday completa 90 anos. Mesmo passado tanto tempo, continua sendo estudada pelos acadêmicos. É tema constante de livros, filmes e séries de TV. Desperta uma espécie de fascínio masoquista nos operadores de mercado.
Pudera, trata-se do marco definitivo do fim do maior e mais pujante bull market de ações da história. O Seu Dinheiro traz uma série de reportagens especiais sobre o tema neste link.
Invertendo a ampulheta do tempo, veremos que a máxima do Índice Industrial Dow Jones já acontecera havia 51 dias. Foi na terça-feira 3 de setembro de 1929, logo após o final do período de férias dos americanos, que tradicionalmente se encerra no Labor Day (Dia do Trabalho), sempre na primeira segunda-feira desse mês.
O Dow batera 381,17. Mas, e daí? Não é um número como outro qualquer? Quem é que poderia adivinhar que esse nível só voltaria a ser atingido um quarto de século mais tarde, em 1954, após as tragédias da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.
Esfuziantes Anos Vinte

Calma, Ivan. Por enquanto você está contando a história do Grande Crash e não do que aconteceu depois. Voltemos ao início do ciclo de crescimento que ficou conhecido como Roaring Twenties (Esfuziantes Anos Vinte).
Numa sociedade onde todos seriam ricos (pelo menos era o que se dizia), eram tempos do charleston, das flappers (melindrosas), com seus vestidos coloridos, não raro exibindo os joelhos, colares até a altura do umbigo e cigarros na ponta de piteiras compridas.
Talvez em memória daqueles anos de ilusão e fantasia, essas modas jamais voltariam a se repetir.
Ah, já ia me esquecendo da Lei Seca (Prohibition − 1920/1933) e dos speakeasies, bares “clandestinos”. Só em Nova York havia dezenas de milhares. Nunca se bebeu tanto nos Estados Unidos.
Os bilionários de hoje possuem jatinhos. Os daquela época, luxuosos vagões ferroviários particulares, atrelados aos comboios expressos, como o 20th Century Limited, que ligava as estações Grand Central, em Nova York, e LaSalle Street Station, em Chicago.
Como não podia deixar de ser em tempos de especulação desenfreada como aquela, a Bolsa tinha seus magos. Tanto podia ser um ilustre banqueiro da casa J. P. Morgan, uma vidente, como Evangeline Adams, cujo consultório ficava no prédio do Carnegie Hall e fazia profecias autorrealizáveis, ou o engraxate de 19 anos Pat Bologna, que lustrava os sapatos dos especuladores mais celebrados, inclusive o multimilionário Joseph Kennedy, pai do futuro presidente John Kennedy.
Conversa com um, conversa com outro, nessa troca de informações, Pat acabava sabendo das novidades do dia, principalmente das ações mais cotadas para uma alta rápida. E tratava de especular para si próprio, com ótimos resultados.
A economia americana não poderia estar melhor. Só a Ford Motor Company, de Detroit, produzira um milhão e meio de carros em 1929, número esse que só seria superado três décadas mais tarde.
Os passageiros da primeira classe do luxuosíssimo transatlântico Berengaria dispunham de uma corretora de valores no deque principal. Assim não precisavam interromper suas especulações enquanto transitavam entre Nova York e a Europa e vice-versa.
A magnata da beleza mundial, Helena Rubinstein, então com 58 anos, era uma dessas pessoas que não dispensavam uma jogada na Bolsa durante as travessias. Dispunha inclusive de um especialista em ações que a acompanhava no navio.
Era quase unânime entre os americanos a opinião de que eles estavam erigindo uma sociedade onde todos os brancos seriam ricos, sendo o mercado de ações o maior responsável por isso.
Oba-oba sem escrúpulos
Para apressar seus ganhos, alguns especuladores inventaram um sistema tão criativo quanto inescrupuloso. Eles simplesmente fundavam empresas cujo único objetivo era comprar ações de outras empresas. Estas, por sua vez, adquiriam papéis de outras e assim por diante.
Nenhuma delas produzia nada, apenas lucros. Lucros artificiais, mas, mesmo assim, lucros. Enquanto a Bolsa subisse, e muita gente acreditava que subiria para sempre, todos lucravam.
Se o mercado revertesse, uma grande quantidade de investidores ingênuos e ambiciosos seria proprietária de papéis sem valor algum.
Alavancagem era a palavra da moda. Por que adquirir 100 ações da General Electric, da Standard Oil of New Jersey ou da United States Steel se, com o mesmo capital, se podia comprar cinco vezes mais? Bastava contrair um empréstimo bancário dando em garantia as próprias ações.
Sim. Lucrava-se cinco vezes mais. Desde, é claro, que o mercado continuasse subindo.
Os bancos facilitavam enormemente esses empréstimos para compra de ações. Os juros eram altos. Mas quem se importava com taxas de juros se a Bolsa subia muito mais?
Havia também as puxadas. Grupos de especuladores formavam pools e escolhiam uma ação para subir. Primeiro compravam seus lotes. Depois espalhavam que a empresa tinha descoberto um produto espetacular, ou coisa parecida, e subornavam jornalistas para dar notícias favoráveis àquele investimento.
Quando a manada entrava no papel, os “underwriters” iniciais vendiam os seus lotes, não raro dobrando ou triplicando o dinheiro. E partiam para outra jogada.
Enquanto isso, lançamentos de novas ações não paravam de surgir. Os anúncios enchiam páginas e mais páginas dos jornais.
A festa acabou...
Até que um dia o fluxo de dinheiro se inverteu. No início, de mansinho, mais dinheiro começou a sair da Bolsa do que entrar.
Pouquíssima gente percebeu.
Tudo isso poderia ser evitado se o governo tivesse um órgão regulador que fiscalizasse a lisura dos IPOs (esse termo ainda não era usado). Só que essa agência, a SEC – Securities and Exchange Commission − só seria criada em 1934, cinco anos após o crash.
Algumas pessoas e instituições foram prudentes e alertaram seus clientes que o preço das ações estava muito alto e que uma queda era inevitável. Entre elas, Amadeo Peter Giannini, fundador do Bank of America, que se tornaria o maior do mundo.
Giannini inclusive instruiu seus correntistas a vender ações de seu próprio banco.
A corretora Merrill Lynch também recomendou aos clientes sair fora da Bolsa. Entre eles, o ator Charles Chaplin.
Mais tarde, indagado por que liquidou suas ações antes do crash, e preservou sua enorme fortuna, Chaplin respondeu singelamente:
“Não entendo nada de mercado. Meus corretores mandaram vender e assim eu fiz”
Curiosamente, hoje em dia o Bank of America e a Merrill Lynch são a mesma empresa. A fusão das duas instituições ocorreu em 2009, oitenta anos após o crash.
Alguns especuladores também perceberam o que iria acontecer. Entre eles Joseph Kennedy e o lendário Jesse Livermore. Ambos não só liquidaram suas carteiras como venderam papéis a descoberto.
Podemos ter outra crise de 29?
Volta e meia alguém me pergunta se o colapso de 1929 tem chances de se repetir. Acho altamente improvável. Melhor dizendo, quase impossível.
Em 19 de outubro de 1987, houve um crash de grandes proporções na New York Stock Exchange. Nesse dia, que ficou inimaginosamente conhecido como Black Monday, o Dow Jones perdeu mais de um quinto de seu valor.
Só que o governo e o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, agiram rápido. Enquanto o presidente Ronald Reagan pediu pessoalmente aos CEOs das grandes empresas listadas na Bolsa que comprassem seus próprios papéis, a Reserva Federal, cujo chairman, Alan Greenspan, acabara de assumir, inundou o mercado de liquidez.
Sendo Wall Street incorrigível, entre 2007 e 2010 os bancos se dedicaram desenfreadamente a financiar hipotecas, inflando o preço dos imóveis e oferecendo novos empréstimos pelos novos valores.
Quando o mercado financeiro ameaçou entrar em colapso, com a falência do Lehman Brothers, o governo simplesmente interveio nas duas maiores instituições de crédito imobiliário dos Estados Unidos: Fannie Mae e Freddie Mac, impedindo a falência de ambas.
Simultaneamente, grandes empresas, inclusive a General Motors, que chegou a pedir recuperação judicial (Chapter 11 of the Bankruptcy Code), receberam aportes financeiros do Tesouro.
Por essas e outras razões, acredito que 1929 foi uma lição aprendida. Jamais os Estados Unidos serão uma nação onde todos serão ricos. Muito menos outra em que todos serão pobres, como quase foi o caso na Grande Depressão dos Anos Trinta.
O negro Natan Will, que apresentei no início deste artigo, nunca existiu. Trata-se de um personagem de ficção que criei apenas para dar força dramática ao texto.
Seus descendentes, se ele tivesse existido, jamais teriam de quebrar as costas e rachar as mãos na colheita de algodão, hoje feito por modernas colheitadeiras.
Quem sabe, uma delas estaria sendo pilotada por um bisneto de Will, fechado em uma cabine com ar-condicionado. Em sua própria fazenda, bem entendido.
- Quer um eBook exclusivo sobre a crise de 1929? Clique aqui e reserve o seu agora
Trump Media estreia na NYSE Texas, mas nova bolsa ainda deve enfrentar desafios para se consolidar no estado
Analistas da Bloomberg veem o movimento da empresa de mídia de Donald Trump mais como simbólico do que prático, já que ela vai seguir com sua listagem primária na Nasdaq
Agenda econômica: últimos balanços e dados dos Estados Unidos mobilizam o mercado esta semana
No Brasil, ciclo de divulgação de balanços do 4T24 termina na segunda-feira; informações sobre o mercado de trabalho norte-americano estarão no foco dos analistas nos primeiros dias de abril.
Nova York em queda livre: o dado que provoca estrago nas bolsas e faz o dólar valer mais antes das temidas tarifas de Trump
Por aqui, o Ibovespa operou com queda superior a 1% no início da tarde desta sexta-feira (28), enquanto o dólar teve valorização moderada em relação ao real
Nem tudo é verdade: Ibovespa reage a balanços e dados de emprego em dia de PCE nos EUA
O PCE, como é conhecido o índice de gastos com consumo pessoal nos EUA, é o dado de inflação preferido do Fed para pautar sua política monetária
Não existe almoço grátis no mercado financeiro: verdades e mentiras que te contam sobre diversificação
A diversificação é uma arma importante para qualquer investidor: ajuda a diluir os riscos e aumenta as chances de você ter na carteira um ativo vencedor, mas essa estratégia não é gratuita
Tarifas de Trump derrubam montadoras mundo afora — Tesla se dá bem e ações sobem mais de 3%
O presidente norte-americano anunciou taxas de 25% sobre todos os carros importados pelos EUA; entenda os motivos que fazem os papéis de companhias na América do Norte, na Europa e na Ásia recuarem hoje
Esporte radical na bolsa: Ibovespa sobe em dia de IPCA-15, relatório do Banco Central e coletiva de Galípolo
Galípolo concederá entrevista coletiva no fim da manhã, depois da apresentação do Relatório de Política Monetária do BC
Rodolfo Amstalden: Buy the dip, e leve um hedge de brinde
Para o investidor brasileiro, o “buy the dip” não só sustenta uma razão própria como pode funcionar também como instrumento de diversificação, especialmente quando associado às tecnologias de ponta
Ato falho relevante: Ibovespa tenta manter tom positivo em meio a incertezas com tarifas ‘recíprocas’ de Trump
Na véspera, teor da ata do Copom animou os investidores brasileiros, que fizeram a bolsa subir e o dólar cair
É hora de comprar a líder do Ibovespa hoje: Vamos (VAMO3) dispara mais de 17% após dados do 4T24 e banco diz que ação está barata
A companhia apresentou os primeiros resultados trimestrais após a cisão dos negócios de locação e concessionária e apresenta lucro acima das projeções
Sem sinal de leniência: Copom de Galípolo mantém tom duro na ata, anima a bolsa e enfraquece o dólar
Copom reitera compromisso com a convergência da inflação para a meta e adverte que os juros podem ficar mais altos por mais tempo
Felipe Miranda: Dedo no gatilho
Não dá pra saber exatamente quando vai se dar o movimento. O que temos de informação neste momento é que há uma enorme demanda reprimida por Brasil. E essa talvez seja uma informação suficiente.
Eles perderam a fofura? Ibovespa luta contra agenda movimentada para continuar renovando as máximas do ano
Ata do Copom, balanços e prévia da inflação disputam espaço com números sobre a economia dos EUA nos próximos dias
Sem OPA na Oncoclínicas (ONCO3): Empresa descarta necessidade de oferta pelas ações dos minoritários após reestruturação societária
Minoritários pediram esclarecimentos sobre a falta de convocação de uma OPA após o Fundo Centaurus passar a deter uma fatia de 16,05% na empresa em novembro de 2024
Ação da Petz (PETZ3) acumula queda de mais de 7% na semana e prejuízo do 4T24 não ajuda. Vender o papel é a solução?
De acordo com analistas, o grande foco agora é a fusão com a Cobasi, anunciada no ano passado e que pode ser um gatilho para as ações
Hora de comprar: o que faz a ação da Brava Energia (BRAV3) liderar os ganhos do Ibovespa mesmo após prejuízo no 4T24
A empresa resultante da fusão entre a 3R Petroleum e a Enauta reverteu um lucro de R$ 498,3 milhões em perda de R$ 1,028 bilhão entre outubro e dezembro de 2024, mas bancos dizem que o melhor pode estar por vir este ano
Não fique aí esperando: Agenda fraca deixa Ibovespa a reboque do exterior e da temporada de balanços
Ibovespa interrompeu na quinta-feira uma sequência de seis pregões em alta; movimento é visto como correção
Deixou no chinelo: Selic está perto de 15%, mas essa carteira já rendeu mais em três meses
Isso não quer dizer que você deveria vender todos os seus títulos de renda fixa para comprar bolsa neste momento, não se trata de tudo ou nada — é até saudável que você tenha as duas classes na carteira
Nova York vai às máximas, Ibovespa acompanha e dólar cai: previsão do Fed dá força para a bolsa lá fora e aqui
O banco central norte-americano manteve os juros inalterados, como amplamente esperado, mas bancou a projeção para o ciclo de afrouxamento monetário mesmo com as tarifas de Trump à espreita
A bolsa da China vai engolir Wall Street? Como a pausa do excepcionalismo dos EUA abre portas para Pequim
Enquanto o S&P 500 entrou em território de correção pela primeira vez desde 2023, o MSCI já avançou 19%, marcando o melhor começo de ano na história do índice chinês